Mudança de pele

HOMEM ONÇA

A cegueira de algumas comissões de seleção de festivais brasileiros fez com que o novo filme de Vinicius Reis esteja estreando mundialmente na Índia, no relativamente novo Arthouse Asia Film Festival, que se realiza desde 2017 em Calcutá. Os indianos souberam compreender Homem Onça com sua temática calcada na realidade brasileira, mas que repercute universalmente em tempos de neoliberalismo. Ainda não há previsão de data para lançamento no Brasil.

O vitiligo avança sobre o corpo de Pedro (Chico Diaz) enquanto ele se bate em defesa de sua pequena equipe na estatal GasBrax (ex-Gás do Brasil), que está passando por um processo de downsize. São os anos 1990, a era das privatizações. Funcionários estão sendo demitidos, e todos esperam chegar o seu dia. Pedro teve um projeto recém-premiado na Suécia e não quer se aposentar, ao passo que seu melhor colega, Dantas (Emilio DiMello), entra no jogo e se anima para montar um negócio próprio de consultoria. A mulher de Pedro (Silvia Buarque) também quer criar uma pequena empresa, mas o marido não se entusiasma. O processo de revisão da vida se acelera para Pedro quando ele tem que engolir a demissão de dois membros da sua equipe.

Além de um rápido flashback com Pedro criança espreitando uma possível onça em Barbosa, sua cidade rural natal, o filme transita entre dois tempos: seus últimos meses na estatal, em 1997, entre manifestações da esquerda contra as privatizações, e anos depois, quando ele já se separou da mulher e está vivendo em Barbosa com uma ex-amiga de juventude, Lola (Bianca Byington).

Ao contrário do empreendedor Dantas, esse novo Pedro adota um estilo de vida hedonista ao lado de Lola, depois de se separar da mulher e da filha. Vira uma espécie de roceiro beberrão, mas feliz, em contato próximo com a Natureza. Numa das melhores cenas do filme, Pedro e Lola, bêbados, cantam “Molambo” ao som do violão do filho dela. “Molambo” era o título de trabalho de Homem Onça.

Como em seus longas de ficção anteriores (Praça Saens Peña e Noites de Reis), Vinícius demonstra completo domínio na condução de cenas de micro-ações e diálogos cotidianos. O elenco está muito bem, com destaque óbvio para Chico Diaz e suas riquíssimas inflexões. Uma séria discussão durante jantar em família com a mulher e a filha é filmada em plano único com Chico de costas, numa escolha formal corajosa. Já a separação é sinalizada numa cena muda em que Chico e Silvia apenas se olham tristemente e ela lhe passa o cigarro que está fumando. São detalhes que apontam uma fina observação do comportamento humano à margem de qualquer teatralização.

Duas metáforas ganham realce na história: o pé de café que Pedro cultiva na sua sala da empresa, símbolo de estabilidade e amor pelo trabalho; e o avanço do vitiligo, que vai pintando a pele dele e o transformando no “homem onça”, indicativo de mudança e reinvenção.

Com essa história inspirada no seu pai, que foi forçado a se aposentar da Vale do Rio Doce, Vinícius dá continuidade a uma obra sólida, de grande acuidade psicológica, e cuja relativa discrição não embaça o brilho de muitas qualidades.

Leiam a entrevista de Vinícius Reis a Maria do Rosário Caetano.

2 comentários sobre “Mudança de pele

  1. Meus parabéns. Que crítica fantástica. Que domínio do que é o cinema, e em especial, o cinema nacional aliado ao controle e conhecimento da língua portuguesa. Parabéns

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