Lula na mira dos partidos da Toga e da Mídia

A TRAMA – minissérie no streaming

Goste-se ou não, Luiz Inácio Lula da Silva é o grande protagonista político dos nossos tempos. Nada mais natural, portanto, que uma das séries audiovisuais surgidas a respeito da história recente o tenha como personagem central. Por razões que extrapolam o próprio Lula, A Trama – A História da Prisão de Lula é a melhor de todas.

São seis capítulos de aproximadamente uma hora que dissecam todo o processo judicial contra o ex-presidente, seus vícios, espetacularização e politização do aparato judiciário. A narrativa começa antes do golpe, com a condução coercitiva de Lula em março de 2016, e vai até sua libertação em novembro de 2019, após cumprir 580 dias de prisão. Os diretores Otávio Antunes, Carlinhos Andrade e Vinicius Zanotti criaram uma habilidosa e eficiente conjugação de materiais de arquivo (de TVs e mídias independentes) e entrevistas (realizadas em 2019) com uma vasta gama de juristas, políticos, ex-ministros, jornalistas, professores, publicitários e profissionais de Comunicação.

A série quer recuperar a história de uma farsa judiciária e midiática através da palavra de quem a sofreu, sem buscar a fantasmagoria da isenção jornalística que consistiria em “ouvir o outro lado”. O “outro lado” já dominou grande parte da opinião pública durante vários anos à base de um conluio entre, de um lado, procuradores e um juiz corruptos e politizados, e de outro uma imprensa preguiçosa e cúmplice.

É impossível não relacionar o título de A Trama com o de O Mecanismo, série ficcional infame de TV dirigida por José Padilha que fazia o elogio indireto da Lava Jato. Ou com o título de O Processo, filme de Maria Augusta Ramos que registrou os bastidores do golpe. A Trama se ocupa das maquinações que um dos entrevistados atribui ao Partido da Toga e ao Partido da Mídia para retirar Lula e o PT do cenário político. Assisti-la hoje, quando o país está prestes a recolocar Luiz Inácio na presidência da República, é ver a história fazer uma curva dramática, quase inacreditável.

O roteiro utiliza as mensagens divulgadas pela Vaza Jato para contextualizar as injúrias e deboches da força-tarefa e de Moro em toda a “farsa lulocêntrica”, como referido pelo advogado Cristiano Zanin. Mas a carga crítica se estende a vastas camadas do Poder Judiciário, em especial o STF, que se mostrou leniente com as ilegalidades da Lava Jato e mais interessado na opinião pública e na opinião publicada do que nos princípios de uma Justiça independente.

Enumero a seguir alguns destaques de cada episódio

  1. A Lei do Golpe – A condução coercitiva de Lula, a invasão do Instituto Lula, o endeusamento de Sérgio Moro, o impedimento de Lula ocupar a chefia da Casa Civil no governo Dilma, a divulgação do grampo ilegal de sua conversa com a presidenta, os ataques e a resistência popular. Já aí sobressaem as intervenções agudas e brilhantes do professor de história Lincoln Secco e do advogado Aury Lopes Jr. Para este último, a condenação midiática antecedia e preparava o terreno para a condenação judicial. Lincoln, por sua vez, sintetiza: “O que incomoda no Brasil é a esquerda que ganha eleição. Por mais moderada que seja, ela ocupa um espaço que naturalmente é das classes dominantes”. À época do golpe, antes mesmo do impeachment, o mercado já havia determinado a queda de Dilma.
  1. O Alvo – a descoberta do pré-sal aguça os interesses externos sobre o Brasil. Os EUA espionam a Petrobras e o governo brasileiro. A guerra híbrida é declarada pelo trinômio mídia-ultraliberalismo-interesses estrangeiros. O advogado criminalista Anderson Lopes sustenta que as táticas jurídicas e a estratégia de comunicação usadas pela Lava Jato estavam além do alcance intelectual de Moro e Dallagnol. O ex-embaixador Samuel Pinheiro Guimarães ratifica a presença do dedo estadunidense na Lava Jato. O AVC de Marisa Letícia e a torcida dos lavajatistas por sua morte encerra o episódio com um convite à indignação.
  1. Conexão Curitiba – Em 2017, enquanto Lula saía em caravana pelo Nordeste, seu julgamento avançava em velocidade recorde para evitar que ele concorresse em 2018. O processo corre como uma ação entre amigos, enquanto o instituto da prisão cautelar vai sendo usado como instrumento de tortura para levar às delações premiadas. A audiência de Lula com Moro foi preparada como um produto de mídia. Aury Lopes Jr. ressalta a “estética da parcialidade” na própria sala em que esta se deu: os procuradores sentavam-se ao lado do juiz, em vez de se posicionarem como acusação, em equidistância ao réu. O deputado Paulo Pimenta relata uma reunião na casa do presidente do TRF-4, desembargador Thompson Flores, cujas paredes eram forradas de quadros com seus parentes que já ocuparam grandes cargos no Judiciário desde os tempos do Império. A elite do poder estava condensada na figura de um dos principais algozes de Lula.
  1. Cale-se – A morte de Marielle Franco foi resultante do mesmo ódio dedicado a Lula. A caravana do ex-presidente ao Sul é atingida por todo tipo de hostilidade e até por tiros. O país está mergulhado no “populismo punitivista”, termo oferecido por Aury Lopes Jr. Com o STF intimidado pelas “opiniões” e os militares, o habeas-corpus de Lula é negado e a prisão se realiza epicamente no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Para Lincoln Secco, “apresentar um ex-presidente não como um inimigo político, mas como um criminoso comum significava destituí-lo da dignidade do cargo.” Isso foi feito porque Lula era “o rosto das camadas populares brasileiras”. Seguem-se a Vigília Lula Livre, o festival Lula Livre no Rio de Janeiro e a ocupação do triplex de Guarujá pelo MTST e o Povo sem Medo. Um dos grandes momentos da série é a interpretação de Ângela Carrato, doutora em Comunicação, da imagem que a Globo divulgou do avião que levava Lula para Curitiba desaparecendo lentamente num céu escuro. Parecia o fim de uma era.
  1. Opção Indisponível – Outro tento admirável de A Trama é narrar a tentativa frustrada do desembargador Rogério Favretto de libertar Lula através da repercussão do caso na pequena cidade piauiense de Guaribas, berço do Bolsa Família, onde Diego Lisboa, diretor de cena da campanha Haddad-Lula, estava filmando na ocasião. A candidatura de Lula é indeferida e o TSE desrespeita uma recomendação do Comitê de Direitos Humanos da ONU. Bolsonaro cresce no eleitorado com a facada (ou fakeada) e a ausência nos debates. As fake news transformavam a esquerda em monstros para que o verdadeiro monstro parecesse pequeno diante do eleitorado, como diz Manuela D’Ávila. Bolsonaro obtém enraizamento social, vence as eleições e Moro se desmascara como ator político aceitando o cargo de Ministro da Justiça.
  1. Não é o Fim – Lula está preso, é impedido de ir ao velório do irmão e escoltado como criminoso perigoso na ida ao velório do neto. Em compensação, apesar da obstrução de alguns ministros do STF, ele concede entrevistas na prisão e retorna à arena pública. Estoura a Vaza Jato e o conluio mídia-Lava Jato opta por criminalizar o hacker. Lula é ameaçado com a transferência para o presídio comum de Tremembé e finalmente é libertado com a queda da prisão em segunda instância.

O laborioso trabalho de montagem e articulação de A Trama se permite alguns arroubos de edição retórica. Um deles é o paralelo entre a movimentação dos operário no ABC no final dos anos 1970 e a mobilização no sindicato para tentar evitar que Lula se entregasse à Polícia Federal. Outro é a alternância entre imagens da posse de Bolsonaro e do desastre ambiental de Brumadinho. Mas isso constitui exceções num dossiê audiovisual que prima pela sobriedade, ainda que fornecendo pathos por meio de uma trilha musical quase permanente por baixo do discurso oral.

Por suas qualidades técnicas e posicionamento franco contra as causas de nossas tragédias recentes, a série merece figurar entre as obras realmente grandes do “cinema contra o golpe”, ao lado de O Processo, Democracia em Vertigem e Amigo Secreto.

P.S. Está anunciada para 1º de agosto próximo a inauguração do Museu da Lava Jato. A princípio virtual, mas com planos de ganhar uma sede física em Curitiba no ano que vem. A instituição, idealizada por um grupo de juristas, jornalistas e historiadores críticos à operação, terá um acervo jurídico e jornalístico, um núcleo de pesquisa sobre o lawfare (uso da lei para perseguição política) e um memorial em homenagem à vigília que acompanhou Lula durante os 580 dias em que esteve preso. Informações da coluna de Monica Bergamo.

>> A Trama está nas plataformas Vivo Play, Looke e Claro+.

2 comentários sobre “Lula na mira dos partidos da Toga e da Mídia

  1. Excelente e mais que oportuna sua “dica”, Carlinhos. Esse material é precioso para a preservação da memória desses tempos sombrios que estamos vivendo, para que não se repitam. Muito obrigado!

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