Rituais da morte desejada

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Uma corrente de emoções está na origem de Está Tudo Bem (Tout s’est Bien Passé). François Ozon adapta o livro homônimo de sua amiga Emmanuèle Bernheim, no qual ela relatou o processo de eutanásia do seu pai em 2010. Sete anos depois foi a vez da própria Emmanuèle, companheira do crítico Serge Toubiana, falecer, vítima de câncer. O filme se alimenta com sobriedade desses sentimentos, alguns subterrâneos, para falar da dificuldade de se lidar com a morte de um ente querido.

André Bernheim (André Dussolier, magnífico) era um industrial, colecionador de arte e amante da vida. Aos 84 anos, depois de sofrer um AVC seguido de várias complicações, ele decide que não quer mais viver de modo tão limitado. Pede às filhas que o ajudem a “acabar com isso”. Na prática, o pedido é uma transferência de responsabilidade que passa a pesar sobre os ombros de Emmanuèle (Sophie Marceau, igualmente magnífica) e sua irmã Pascale (Géraldine Pailhas). Embora progrida no tratamento e tenha consideráveis melhoras, André continua firmemente determinado em sua opção.

A partir de certo ponto, o filme deixa de ser um mero drama hospitalar para desfiar observações agudas sobre uma situação-limite. Observações que não estão somente nos diálogos, mas em detalhes da encenação. Um exemplo: em sessão de fisioterapia, André se esforça para levar um copo à boca. Ozon corta daí para um grupo de amigos levantando um brinde em restaurante. Outro: Emmanuèle guarda um sanduíche parcialmente comido pelo pai até um certo momento carregado de simbolismo.

O tema das enfermidades não sai de cena. Emmanuèle contrai um vírus, sua mãe escultora (Charlotte Rampling) está afundada em depressão. No entanto, o eixo central passa a ser os contrastes entre a vontade terminal de André e o entusiasmo com que realiza seus últimos desejos. Assim é que nos vemos, de repente, rindo a propósito de assunto tão delicado. O humor é sempre o trunfo da inteligência, e Ozon não decepciona.

Como a eutanásia é proibida na França, a solução se apresenta na Suíça. Daí o surgimento da deliciosa personagem vivida por Hannah Shygulla, capaz de transformar a prática da morte assistida em fato absolutamente prosaico.

A decisão de André abre a cortina para algumas adversidades na história de uma família muito ligada às artes, mas pouco harmônica na vida. A fraternidade entre as duas irmãs é o esteio de cada uma. Além, é claro, das condições financeiras que possibilitam atravessar confortavelmente aquele momento difícil, inclusive driblando a polícia francesa. “Como fazem os pobres?”, pergunta-se André. “Eles esperam morrer”, responde Emmanuèle. Eis a contradição: os ricos podem morrer antes, se quiserem.

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2 comentários sobre “Rituais da morte desejada

  1. Salve, Nelson, esse mundo digital é mesmo traiçoeiro. Grato por compartilhar a matéria. Apenas ressalvo que essa suposta intenção do Delon foi posteriormente negada pelos seus filhos.

  2. Olá, Carlinhos, tudo bem?
    Fiz esta manhã ampla digressão sobre o tema desse instigante filme, trazido por você, mas como sou um desastre em computação, acabei mudando de página e ao voltar ao texto, verifiquei que ele havia se evaporado dali, para minha frustração. Nele eu abordava, por analogia, o caso de Alain Delon, reconhecidamente o mais celebrado ator francês das últimas seis décadas e meia, além de diretor e produtor de sucesso, mas como seria por demais trabalhoso, senão quase impossível refazer meu escrito, estou tomando a liberdade, com a sua permissão, de encaminhar-lhe, abaixo, matéria didática pertinente ao tema do filme de François Ozon, tão bem referido por você, abordando justamente o caso de Alain Delon, na esperança de que ela possa interessar aos seus fervorosos leitores. Forte abraço. https://noticias.r7.com/saude/ator-alain-delon-tomara-mesma-droga-usada-na-injecao-letal-em-suicidio-assistido-31032022

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