No coração de uma família

MARTE UM

O pessoal da produtora Filmes de Plástico volta a aquecer nossos corações com esse rendilhado de momentos na vida de uma família preta de Contagem, periferia de Belo Horizonte. Em fins de 2018 (quando o filme de fato foi rodado), enquanto grande parcela do povo brasileiro elegia um presidente genocida, os quatro personagens centrais de Marte Um tentam sobreviver a distúrbios pessoais e comunitários. Para isso, é necessário administrar conflitos geracionais e juntar as pontas de desejos díspares.

Francisco, o pai da família, é zelador de um condomínio em B.H., luta contra o alcoolismo e almeja ver o filho Deivinho fazer carreira no futebol. Este, porém, está mais interessado na astrofísica, o que motiva o título do filme. Eunice está iniciando um namoro que desafia a tolerância dos pais. Tércia, a mãe, sofre transtornos desde que foi vítima de uma pegadinha de televisão.

Esse núcleo nos é apresentado pelo diretor e roteirista Gabriel Martins de maneira fragmentada e intercalada, como tem sido praxe em muitas narrativas do cinema brasileiro recente. Aos poucos, a trama se adensa e ganha contornos mais nítidos, sem contudo abandonar a estrutura fracionada e cheia de reticências. Cada pequena cena é lapidada minuciosamente em matéria de ritmo, luz, trabalho de câmera e, muito especialmente, atuações do elenco. O naturalismo semidocumental, a que já nos acostumamos em filmes da turma, como Temporada, No Coração do Mundo, Ela Volta na Quinta e A Felicidade das Coisas, chega aqui a um requinte que me parece insuperável. Daí a sensação de convivermos com aquelas pessoas em função da veracidade dos diálogos e da compreensão profunda que os atores transmitem em relação aos sentimentos envolvidos.

Marte Um já passou pelo Festival de Sundance e ganhou prêmios importantes em São Francisco e Los Angeles. Em Gramado, semana passada, levou o Prêmio Especial do Júri, o Prêmio do Júri Popular e os de melhor roteiro e trilha sonora. Merecia um especial para o conjunto do elenco.

Uma virtude singular de Marte Um é que seu naturalismo não se esgota na mera representação do cotidiano. Ao contrário, a espontaneidade é uma fonte constante de surpresas, suspense e humor. Por sobre todos esses ingredientes paira uma nuvem de humanidade comovente. Apesar dos desacertos vividos em família, este é um feel good movie que se contrapõe aos horrores de um Brasil fisgado pelo ódio e a ausência de empatia.

  

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