Notas sobre os filmes HOJE É O PRIMEIRO DIA DO RESTO DA SUA VIDA, SEMPRE GAROTAS e UM PAI PARA LILY
A chegada de Gael
O documentário doméstico brasileiro é levado a um expoente de emoção em Hoje é o Primeiro Dia do Resto da sua Vida. Depois de cinco anos de espera na fila de adoção, o casal de cineastas Isabel Bechara e Sandro Serpa recebe, enfim, a notícia de que um bebê de quatro meses espera por eles. A partir desse momento, os dois começam a filmar um ao outro no processo ansioso, receoso, comovido e feliz de receber Gael.
O cinema é parte da vida deles (leiam minha resenha de Onde Quer que Você Esteja), mas aqui há muitas razões especiais. Trata-se de uma mudança relativamente brusca na vida deles, ocorrida em plena pandemia (2021) e durante um governo que representava ameaça à vida. A chegada de Gael era um sopro de esperança. Havia, ainda, a intenção de registrar tudo aquilo para um dia mostrar a Gael que ele foi um filho esperado com desejo e carinho.
É exatamente isso o que passa para o espectador, que compartilha os momentos de medo, descoberta e ternura do novo trio (ou quarteto, se juntarmos o afetuoso cachorrinho Miguilin). Os primeiros contatos visuais e depois físicos com o bebê, o primeiro fim de semana em casa, o primeiro mamão amassado… Falando assim, pode-se pensar numa sucessão de clipes de bebê adorável no Youtube. Nada mais diferente. E o que faz a diferença é o senso de construção fílmica de Sandro e Isabel, e a disposição dos dois para refletir diante da câmera sobre cada passo da jornada.
Essas reflexões, diga-se, não pretendem nada além de expressar as emoções simples de recomeçar a vida em nova configuração, preparar a casa e os corações para um novo tempo. Que, por sorte, trouxe também a eleição do Lula em 2022 e o alívio, pelo menos momentâneo, de uma primeira infância mais saudável para Gael. Eis um filme sobre algo muito básico e ao mesmo tempo tão fundamental.
>> Hoje é o Primeiro Dia do Resto da sua Vida está nas plataformas ClaroTV e Vivo Play.
Estreia no Canal Brasil nesta quarta-feira, dia 7, às 20 horas
Tinha uma mãe no meio do caminho
Sempre Garotas (Girls Will Be Girls)é um romance de formação, no qual uma jovem indiana aprende que seguir as regras nem sempre garante a felicidade, mas infringi-las também tem seu preço. É um caso relativamente complexo, sobretudo quando visto à luz de uma moral conservadora, machista e hipócrita vigente em áreas mais remotas da Índia.
Mira (Preeti Panigrahi), 18 anos, vive nos Himalaias sob a estrita tutela de sua mãe, Anila (Kani Kusruti, de Tudo o que Imaginamos como Luz), e dos diretores da escola rígida, de índole militar, onde estuda. Mira é aluna exemplar, o que lhe confere poderes de monitora. Quando denuncia meninos que faziam fotos indecentes de meninas, ela entra na mira dos colegas, no típico efeito manada.
Ao mesmo tempo, inicia um namoro com Sri (Kesav Binoy Kiron), colega desenturmado e um tanto manipulador, com quem ela vai colocar em prática pela primeira vez os impulsos do desejo e a descoberta do próprio corpo. Sua mãe, porém, sob pretexto de controlá-la, interpõe-se na relação com Sri, ela mesma irrealizada nos seus romances. O vínculo entre mãe e filha torna-se ainda mais difícil do que já era antes. Fica claro que Anila pega carona no despertar sensual da filha.
A diretora Shuchi Talati, formada no American Film Institute e radicada em Nova York, toma liberdades incomuns para a média do filme indiano. Já no seu curta A Period Piece, de 2020, ela mostrava um casal desnudo e tendo sua relação sexual interrompida pela menstruação (period) da moça. Sempre Garotas, seu primeiro longa, traz sugestões diretas de carícias sexuais, cópula e masturbação.
O roteiro não é dos mais fluentes ou dinâmicos. Arrasta-se aqui e ali, e chega a ser inverossímil em vários momentos, especialmente na convivência do trio principal ou na cena culminante de Mira no colégio. Mas não se pode negar a sensibilidade com que Shuchi Talati conduz as cenas de intimismo entre os personagens. O elenco central transmite as sutilezas das disputas por atenção e os dilemas de gênero numa sociedade autoritária.
>> Sempre Garotas está nos cinemas.
Curtidas paternais
A noção de família escolhida está no centro do melodrama Um Pai para Lily (Bob Trevino Likes it), baseado em história real vivida pela diretora Tracie Laymon. Lily é uma garota menosprezada por um pai autocentrado. Carente de amigos e de família, ela vasculha o Facebook em busca de uma relação substituta. Vai topar com outro Bob Trevino, um homônimo que parece o oposto do seu pai.
Tudo parte, então, dessa faculdade eventualmente positiva das redes sociais de aproximar pessoas que não se conhecem fisicamente e criar laços insuspeitados. Uma curtida bem recebida pode operar milagres.
Não há muita sutileza na forma como Lily e o Bob 2.0 se encaixam num vínculo de amizade que mal disfarça a relação pai-filha. Pouco sutil é também o retrato do Bob pai, uma espécie de monstro egoísta e oportunista. Esses perfis tão opostos criam uma facilidade dramática fatal para que o filme atinja as emoções claramente pretendidas. Quando falha a verdade dos personagens, sobrevêm as cenas lacrimosas para tapar os buracos. Todos, afinal, são carentes de alguma maneira.
Ainda assim, Um Pai para Lily pode tocar corações mais moles, principalmente pela performance de Barbie Ferreira, atriz e modelo supersize de origem brasileira que ganhou fama como a Kat Hernandez da série Euphoria. Curiosamente, Barbie também tem uma história pessoal de abandono do pai. Embora excessivamente infantilizada para sua idade, Lily pode ser um gatilho para muitos jovens por aí.
>> Um Pai para Lily está nos cinemas.







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