Esse filme, que ganhou o Prêmio da Crítica (Fipresci) no Festival de Berlim e vai representar o Chade no Oscar, nos convida a entrar em outro ritmo de vida numa aldeia do Deserto de Ennedi. Convida-nos também a percorrer as impressionantes formações rochosas do lugar: cadeias de pedras imensas, cavernas com desenhos rupestres, montanhas que tornam minúsculas as figuras humanas.
Ali, no urbanismo peculiar de casas e muros de adobe, vive Kellou (Maïmouna Miawama). Aos 17 anos, ela é atormentada por visões enigmáticas e rodeada por adultos que cultivam lendas e maldições. Chamam-na de “filha de sangue” porque sua mãe morreu ao lhe dar à luz. Namora um rapaz cujo pai se opõe porque já prometera o filho a uma prima. Os pais, assim como os homens da aldeia, representam a intolerância e o aprisionamento a costumes tradicionais.
A situação de Kellou se complica ainda mais quando ela descobre que tem uma forte conexão filial com Aya (Achouackh Abakar Souleymane), mulher amaldiçoada por supostamente ter trazido desgraças para a aldeia. Uma forte chuva havia causado grande destruição. Contra tudo e todos, Kellou vai às últimas consequências para manter sua ligação com Aya, que a estimula a aceitar suas visões.
A noite das estrelas do título se refere a um mito chadiano segundo o qual crianças concebidas naquela noite especial serão também especiais. Esse caráter diferenciado de Kellou assume duas formas diferentes. Na primeira metade do filme, ela parece uma adolescente elegante e moderninha, em contraste com o ambiente rústico da aldeia. À medida que começa a entender a sua condição, ela adota postura e roupas mais comuns, ao mesmo tempo que seu comportamento se torna mais obscuro e obsessivo.
Essas mudanças, assim como outros elos narrativos do filme, parecem pouco consistentes. Soumsoum não tem a coesão e a potência de outros filmes de Mahamat-Saleh Haroun, o prodigioso cineasta de Um Homem que Grita, Grigris, Bye Bye Africa e Temporada de Seca (leia meu artigo de 2015 sobre o cinema dele aqui). Mas existe ali a marca de um cinema profundamente ligado à realidade e à mítica do Chade. A imponência das locações tem uma conotação fabulosa ligada à permanência dos mortos e da memória. Em outro nível, vale a pena observar a relação entre o barro das casas e os tecidos diáfanos que servem para a diversão e a arquitetura doméstica, a vida e a morte.
>> Programação: https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/soumsoum-la-nuit-des-astres




