Festival do Rio: “Cony, Retrato Íntimo”

O título é já um recorte. Cony, Retrato Íntimo não é um filme sobre a brilhante carreira do jornalista Carlos Heitor Cony (1926-2018). Nem sobre sua atividade literária. Tudo isso passa pelas bordas nesse perfil de Cony enquanto marido, pai, apaixonado por viagens, pianista razoável e pintor de um dia no ano. A gente fica sabendo até mesmo como ele virava as páginas dos livros de maneira sensual e como mordia jabuticabas. A vida doméstica, enfim.

A viúva Beatriz Evelyn Lajta é quem pilota a viagem pelas memórias do casal. Entrevistada por Helena Lara Resende, que assina o filme junto com Marcos Ribeiro, Beatriz relembra momentos de sua relação com o marido e oferece detalhes valiosos para conhecermos o Cony privado. Por exemplo, o carinho extremo que tinha pela cadelinha Mila ao longo de 13 anos. Ou o fato de que ele fazia questão de pintar um quadro em todos os dias 1º de janeiro. E somente nesse dia.

Grande parte das imagens que vemos provem das câmeras com que Cony e Beatriz brincavam de registrar momentos em casa ou nas muitas viagens que fizeram pelo mundo. Esse material, terno e às vezes divertidamente cafona, configura uma espécie de love story que atravessa o filme.

É interessante como os realizadores encontraram cenas capazes de pontuar os relatos de Beatriz ou as curtas participações da filha de Cony, Verônica, e da neta Sabrina. Assim, o filme se deixa conduzir basicamente pelas cenas da intimidade.

Não é que faltem alusões a seu trabalho. Cony aparece em entrevistas explicando sua paixão pela escatologia e o erotismo, ingredientes que comparecem em alguns de seus livros e lhe valeram críticas. Ele fala também de seu interesse pela religião, embora se dissesse ateu. Seus textos fortes contra a ditadura de 1964 também são mencionados, junto com a história de suas prisões e exílio em Cuba. Cenas domésticas o mostram na convivência com amigos como Ruy Castro, Sérgio Augusto e Janio de Freitas. A nata de uma certa cultura jornalística carioca.

Essas referências, porém, não desviam muito o sentido desse retrato íntimo. Algumas delongas da montagem é que interrompem o ritmo fluente do filme, enquanto a leitura de textos de Cony por Pedro Bial quebra um pouco o tom familiar sem restituir a graça da escrita. Cony não precisava dessa contribuição estelar.

>> Programação: https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/cony-retrato-intimo

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