Festival do Rio: “Uma Missa para Dom Angélico”

Uma Missa para Dom Angélico traz à luz uma dessas figuras que, se não fosse um filme como esse, ficariam à sombra de outras tão ou menos importantes do que elas. Dom Angélico Sândalo Bernardino (1933-2025) saiu de uma diocese relativamente pequena na Zona Leste de São Paulo para se tornar uma liderança da igreja progressista. Desde o fim dos anos 1950 ele se engajou nos movimentos populares, estimulando os trabalhadores a lutarem por seus direitos.

O filme de Emília Silveira resgata um simples episódio que demonstra suas raízes regionais: a luta pela instalação de uma cancela num cruzamento ferroviário que causava acidentes num bairro popular. Ele mobilizou os moradores a se deitarem na linha do trem caso a prefeitura não instalasse a cancela. Consta que ele costumava dizer: “Governo é como feijão. Só vai na pressão”.

Como Bispo da Pastoral Operária e posteriormente Bispo Auxiliar de São Paulo, lado a lado com Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Angélico foi capaz de arrombar a porta do gabinete de Paulo Maluf para que ele recebesse moradores ameaçados de uma desocupação. Foi um grande incentivador do Grito dos Excluídos e até criou um jornal de bairro, Grita Povo.

Por essas ações foi chamado de bispo comunista e bispo do demônio. A igreja conservadora o exilou para Blumenau durante a ditadura. Sua história é lembrada por seu auxiliar Padre Toninho e por outros confrades e admiradores como Frei Betto e Padre Julio Lancelotti.

Emília Silveira criou uma larga moldura que abre e fecha o filme com testemunhos de líderes e beneficiários de movimentos de moradia. A conexão com Dom Angélico se perde um bocado nessas partes. Além disso, a abordagem se expande para outros movimentos, as Comunidades Eclesiais de Base e a Teologia da Libertação, sem que, novamente, o nexo com a biografia do bispo fique visível.

Se essas digressões enfraquecem o filme estruturalmente, não tiram a relevância do seu núcleo principal: a história de um padre sereno e firme, simpático até a medula, e que carregou a chama da identificação de uma parte da igreja católica com as necessidades do povo. Coisa muito distante do oportunismo capitalista dos evangélicos pentecostais que hoje assolam a nossa realidade.

>> Programação: https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/uma-missa-para-dom-angelico

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