por Paulo Lima
Dois documentários celebram a memória do poeta de Bala com Bala. Aldir Blanc – Resposta ao Tempo e Fui Olhar Você Dormir partem de perspectivas distintas para mostrar a vida e a obra do letrista e compositor morto em 2020 pela Covid.
Resposta ao Tempo, dirigido por Marcus Fernando e Hugo Sukman, cobre um arco mais amplo, trazendo a trajetória de Aldir, partindo de suas raízes na Zona Norte do Rio de Janeiro. É o próprio Aldir quem conta sua história na maior parte do tempo, através de uma mescla de depoimentos e entrevistas obtidas em vários momentos de sua vida.
De sua formação em Medicina e Psiquiatria, restou o compositor. A morte de suas filhas gêmeas enterrou nele a pretensão de ser médico. Aldir conta como o chamado como compositor se impôs quando ele viu Elis Regina cantar Arrastão na TV. Suas letras, como a de O Bêbado e o Equilibrista, fazem hoje parte do imaginário brasileiro. Dorival Caymmi, num depoimento reproduzido em áudio, disse que Aldir é um “ourives do palavreado”.
O documentário expõe o húmus do poeta nascido no Estácio e criado em Vila Isabel, tal como Noel Rosa. A vida das ruas, dos botequins, deram a ele a matéria prima de suas canções. Ele conta como, quando criança, o avô chamou sua atenção para a lua que se refletia na caixa d´água, a lua da Zona Norte.
À sua postura reclusa, que recusava qualquer holofote ligado à carreira artística, ele acrescentava o humor, que explorou como cronista. “O Brasil só vai morrer quando uma força política externa, aliada aos reaças de sempre aqui dentro, conseguirem matar o humor”, ele declara numa cena. Parece que estava falando do Brasil atual.
Suas parcerias ganham um destaque à parte, especialmente a tão profícua parceria com João Bosco. Mas outras igualmente importantes são lembradas, como as parcerias com Guinga e Moacyr Luz.
Um dos aspectos lúdicos do documentário é quando Aldir, que pôs letras em centenas de canções, tenta explicar como chegava a uma letra, experiência que ele traduz como “complexa”, mas que resume assim: “Quando não tem prazo, sempre deixo bater.” Ele então escutava a melodia muitas vezes, até que a letra aparecesse. Ele contou, por exemplo, como surgiu a letra de Dois pra Lá, Dois pra Cá. Estava num táxi quando a letra baixou.
O documentário expõe os dramas de Aldir, como seu alcoolismo. Ele conta que começou a beber aos 13 anos. Seu avô lhe teria dito: “Isso vai te ajudar, e um dia não vai dar certo.” Também expõe seus traumas, como o da perda das filhas gêmeas – traumas mais tarde apascentados pela chegada de outras duas filhas e das duas filhas de sua segunda e definitiva esposa, Mari. Depois vieram os netos, dando outro sentido a sua vida.
O segundo documentário, Fui Olhar Você Dormir, da diretora Anna Azevedo, se aprofunda na intimidade de Aldir através do testemunho de sua viúva, Mari Lúcia Sá Freire.
Mari retorna ao escritório que foi do ex-companheiro e mergulha nos seus arquivos, revisitando 34 anos de vida em comum. Ela lê os bilhetes que Aldir lhe enviava, e ali tem-se um retrato das oscilações do seu humor – da paixão pela musa aos seus estados mais depressivos, agravados pela piora na saúde, com a descoberta do diabetes, que o levou a se afastar da bebida.
Revelam-se a timidez e as neuroses do artista que preferia permanecer afastado das luzes da ribalta, optando pelo anonimato. “Meus heróis são Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, os incógnitos”, ouvimos Aldir afirmar num depoimento em áudio. Em outra cena, ele aparece durante uma participação no programa de Jô Soares, por ele adiada durante anos.
Dos dois documentários, é o mais visceral e penoso, pois mostra mais diretamente o ocaso de Aldir, que se aproximava da velhice, agravada pelos problemas de saúde e pela pandemia que por fim o levou. “É preciso envelhecer pra aprender um monte de coisas óbvias”, o ouvimos dizer em outro depoimento.
No fim, ambos os documentários se complementam e nos fornecem um retrato emocionante de um de nossos maiores poetas da canção. Só não dá para entender como se demorou tanto para que Aldir Blanc, que tanto deu ao Brasil, ganhasse esse reconhecimento.
Paulo Lima
>> Programação:
Aldir Blanc – Resposta ao Tempo: https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/aldir-blanc-resposta-ao-tempo
Fui Olhar Você Dormir: https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/fui-olhar-voce-dormir





