O “sertão molhado” de Vladimir Carvalho

Vladimir Carvalho teve no crítico e cineasta Sérgio Moriconi um aluno, amigo, parceiro de trabalho e dedicado estudioso de sua obra. Dividiram a direção do curta Perseghini, entre muitas outras colaborações. Recentemente, Sérgio resenhou o recém-lançado livro Diante da Catástrofe: a Modernização Brasileira nos filmes de Vladimir Carvalho, de Aline Fernandes Carrijo. O texto foi publicado originalmente na Revista Lume.

Revolvendo Vladimir Carvalho

por Sérgio Moriconi 

Na última edição do festival É Tudo Verdade, o seu diretor, Amir Labaki, perguntava se nós, pessoas próximas, tínhamos conhecimento de algum trabalho que estivesse sendo produzido sobre a obra de Vladimir Carvalho. O grande documentarista havia falecido surpreendentemente havia alguns meses. Apesar dos seus 89 anos, o realizador do clássico O País de São Saruê (e de tantos outros) não tinha nenhuma enfermidade, estava sólido como um mármore de Carrara, participava de inúmeros eventos culturais e, além disso, havia deixado um longa inacabado já em sua fase final de finalização. Labaki tinha, e tem, um enorme respeito e admiração por Vladimir. Queria algo novo, diferente dos lugares-comuns e epítetos conhecidos (o mais nobre deles enunciado por Glauber Rocha: “o Rosselini do sertão”) escrito por um jovem, que lançasse uma luz nova sobre a obra do cineasta.

Não, não sabíamos de nada além de frágeis rumores sobre uma jovem que estaria produzindo uma tese acadêmica não se sabia bem se em Minas Gerais ou outro lugar. Esses rumores se tornaram um fato quando chegou a notícia de que a jovem goiana Aline Fernandes Carrijo havia acabado de defender, no Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade de São Paulo, a tese Diante da Catástrofe: a Modernização Brasileira nos filmes de Vladimir Carvalho, transformada em livro, em 2026, pela Editora Cubile. O título intrigava, assim como o recorte escolhido pela autora. Aline propunha (ou propõe) uma reinterpretação “do lugar ocupado por Vladimir Carvalho na historiografia do cinema brasileiro”. Traduzindo em miúdos, a autora considera que a obra do cineasta vai muito além do “regionalismo”, ela (a obra) exterioriza uma complexa perspectiva sobre a modernização do país, a partir do impacto que a construção de Brasília produziu na região Centro-Oeste.

O “Rosselini do sertão”, acima mencionado, (em Aline) extravasa o sentido comumente atribuído a este clássico epíteto atribuído ao grande realizador baiano. O sertão agora abarca muito mais do que o Nordeste, inclui Goiás e o Distrito Federal, muito retratados na cinematografia de Vladimir Carvalho. Essa simultaneidade temática está magnificamente retratada no curta A Pedra da Riqueza (não citado por Aline) quando um trabalhador de um garimpo de xelita na Paraíba migra para Brasília e se torna funcionário do Departamento de Comunicação da Universidade de Brasília, departamento onde Vladimir ministrava seus cursos de cinema. Em A Pedra da Riqueza, vemos esse funcionário observando imagens do garimpo na tela de uma moviola em uma das salas da Comunicação. Um zoom muito lento, muito lento mesmo, sai do perfil do rosto do funcionário – nosso personagem/protagonista – e focaliza as imagens do garimpo na tela. Um corte nos transporta para a Paraíba. Estamos na mina de xelita!,  local onde vai se desenvolver o enredo de A Pedra da Riqueza.

Aline não menciona A Pedra da Riqueza em seu livro. Utilizo aqui a referência apenas para metaforizar essa simultaneidade temática da obra de Vladimir. No contexto a que me refiro, simultaneidade deve ser compreendida como resultado da flutuação constante do interesse de Vladimir pelas regiões Nordeste e Centro-Oeste, esta última, o Centro-Oeste, brilhantemente capturada criticamente em Diante da Catástrofe. A Aline, claro, interessa o Centro-Oeste, sua região, região que Vladimir chamava poeticamente de “sertão molhado”, definição que tem um quê de sublime paradoxo. Em seu livro, Aline concentra atenção sobre sete filmes de Vladimir: Vila Boa de Goyaz, Quilombo, Mutirão, Brasília Segundo Feldman, Perseghini, Conterrâneos Velhos de Guerra e Paisagem Natural. Como é que ninguém havia pensado nisso antes!? Vladimir havia passado mais da metade de sua vida produtiva em Brasília.

>> Continue lendo na Revista Lume. 

Sérgio Moriconi

Um comentário sobre “O “sertão molhado” de Vladimir Carvalho”

  1. Importante conhecer a filmografia do paraibano Vladimir Carvalho no Centro-Oeste. Um verdadeiro candango cinematográfico, resgatando e produzindo memória no cerrado (sertão molhado) brasileiro.

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