DOUVINA no Cine Ceará
No próximo domingo (8/11), estreia no Cine Ceará o documentário Douvina, de Márcio Câmara. Uma joia cinematográfica sobre música, memória, morte e permanência.
Em 2003, Márcio Câmara foi superpremiado com seu curta Rua da Escadinha, 162, um perfil bem-humorado do seu tio Christiano Câmara. Lá estava o expansivo memorialista, colecionador e crítico que reunia em sua casa, em Fortaleza, um acervo de cerca de 28 mil discos de vinil, além de DVDs de filmes e fotos de celebridades do cinema e da música cobrindo todas as paredes. Uma casa-museu, onde não faltavam Che Guevara e frases grafadas nas paredes, como esta: “Hoje é o amanhã que ontem nos preocupava”. Veja o curta aqui.
O amanhã daquele filme encantador nos chega agora com Douvina, longa-metragem no qual Márcio retorna ao mesmo endereço. Christiano morreu em 2016. Sua viúva, Douvina Andrade, passou a cuidar dos tesouros reunidos em seis décadas de união. Anos depois, ela estava acometida de Alzheimer, processo carinhosamente documentado pelo sobrinho cineasta.
Márcio é um consagrado técnico de som (A Ostra e o Vento, Lavoura Arcaica, Peões, Mutum, Pacarrete…) que se revela também um mestre nos diversos fazeres do cinema. Além da direção e do roteiro, ele assina a fotografia de Douvina, elemento fundamental para a delicada abordagem que faz da dicotomia morte-permanência.
O documentário é tanto sobre a tia quanto sobre a casa. Enquanto Douvina perdia a memória e os movimentos, sua filha Zuleika movimentava-se para preservar aquele patrimônio de memória cultural. Nessa dupla operação, Douvina cresce para além do privado e ganha interesse público.
Mas nada disso é proclamado no filme. Uma narração do diretor (mas na voz de outra pessoa) abre o filme de maneira autorreflexiva, dizendo que abandonou procedimentos convencionais em troca da simples observação silenciosa. É assim que vemos o zelo das mulheres da família e das cuidadoras para com Douvina. Vemos sua dificuldade nas coisas mais simples como calçar uma sandália ou se alimentar. Márcio filma essas coisas com a maior delicadeza. Um olhar oblíquo e respeitoso para os detalhes do corpo, os toques sutis, as micro-ações da mulher absorta em si mesma.
Na trilha sonora, os discos antigos de Christiano ressoam como a própria voz da casa. Essa ilha de memória e afeto fica a poucos metros de um mercado ruidoso e cheio de vida, visto nas imagens do prólogo. Já na cena final, um belo voo de drone parte da simpática construção da Rua da Escadinha para o horizonte da capital cearense. Fica claro, então, que Douvina fala não apenas de uma mulher e de uma casa, mas do entrelaçamento entre o individual e o coletivo, entre o ontem, o hoje e o amanhã de todos nós.




