Horizontes de Mandela

JOANESBURGO, SOWETO, PRETÓRIA

Quando eu e Rosane fomos à África do Sul, em 2011, Nelson Mandela ainda estava vivo e o país tinha sediado a Copa do Mundo no ano anterior. Futebol e Mandela eram signos onipresentes nos muros, outdoors e na decoração das cidades. Nosso percurso no país começou por Joanesburgo, a maior metrópole e centro financeiro da África do Sul.

O centro da cidade era tido na época como um lugar perigoso, chamado Little Lagos devido à predominância de imigrantes nigerianos. A má impressão era agravada por uma greve de recolhedores de lixo. Não ousamos explorá-lo a pé, mas somente de carro com nosso guia. Passamos pela sede do Congresso Nacional Africano, nosso primeiro relance dos muitos ícones da luta contra o apartheid.

Do terraço panorâmico do Carlton Centre, o chamado Top of Africa, desfrutamos de amplas vistas da cidade. De lá divisei a ponte Nelson Mandela, que logo entrou na minha lista de desejos.

No tradicional restaurante Gramadoelas, o primeiro a abrir as portas para negros no país, nos fartamos num vasto bufê de comida sul-africana, que incluía caçarola de avestruz e outras iguarias exóticas. Foi onde provei o bicho da seda torradinho na medida certa. Soube mais tarde que o Gramadoelas foi fechado dois anos depois. Felizmente, o célebre Market Theatre, outro ponto de resistência contra a discriminação racial, continua aberto e ativo.

Nosso passeio abrangeu também bairros afluentes e de construções vistosas como Melrose Arch e Sandton. Neste último fica a Praça Nelson Mandela, misto de homenagem e comércio chique. Uma estátua de bronze com seis metros de altura faz com que o herói sul-africano domine a praça, as atenções e os cliques dos fotógrafos.

Soweto

O distrito mais famoso de Joanesburgo é Soweto, na verdade um município à parte. O nome vem de South Western Townships, ou Bairros do Sudoeste, onde a população negra era confinada na época do apartheid. Ali morava Mandela, cuja antiga casinha visitamos, hoje transformada num pequeno museu.

Seja em suas favelas, seja nos bairros de classe média, Soweto exala as ressonâncias da luta antirracista. Em suas ruas a população negra sofreu violências como o infame Massacre de Soweto de 1976. Na Praça Walter Sisulu, ou Praça da Liberdade, um monumento celebra a vitória contra a discriminação racial. A igreja Regina Mundi foi um ponto de acolhimento dos ativistas anti-apartheid e ostenta um painel de Mandela, Desmond Tutu e outros resistentes com status de santos.

Uma sombria atração de Soweto é o Museu do Apartheid, cujos tickets de entrada encaminham randomicamente o visitante para uma das duas entradas: brancos e não brancos. O interior se assemelha a um presídio cheio de grades e muros de pedra.

Apartheid Museum

De Joanesburgo rumamos para Pretória, a capital administrativa da África do Sul. Como em Joanesburgo, há avenidas cobertas pelas copas das árvores de jacarandá. O centro absoluto da cidade é a Church Square, com belos prédios cercando um amplo espaço verde onde homens descansavam, desabados no gramado. Uma paisagem comum em cidades sul-africanas. Na Cidade do Cabo registrei guardas municipais acordando os dorminhocos e os botando para andar.

Church Square, Pretória

Nossa visita a Pretória durou apenas um dia. Batemos ponto no massivo Monumento Voortreker, dedicado aos migrantes pioneiros que avançaram para além da colônia britânica e alargaram os limites do território sul-africano. No outro lado da cidade, estivemos nos Union Buildings, sede do governo e ponto turístico por seu conjunto arquitetônico semicircular, os jardins e as vistas do alto da colina Meintjieskop. Percorremos, ainda, os interiores vitorianos da Melrose House, mansão da elite onde tiveram lugar alguns tratados históricos da África do Sul.

Tudo isso está no meu vídeo aí abaixo. A trilha musical é africana mas eclética, abarcando de Chico César a Abdullah Ibrahim, de Miriam Makeba a canto zulu.

Assistam também ao vídeo da Cidade do Cabo

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