10 questões

Com aspirações de constituir um balanço crítico da década, a Revista Cinética vai promover a Mostra Cinema Brasileiro Anos 2000, 10 Questões. Será nos CCBBs de SP (13 de abril a 1 de maio) e Rio (26 de abril a 8 de maio). A primeira mostra do gênero foi realizada em 2001, com 9 questões sobre o cinema brasileiro dos anos 1990. A curadoria de João Luiz Vieira, Eduardo Valente e Cléber Eduardo selecionou cerca de 60 filmes e compôs a pauta de debates que pretende discutir as linhas de força e as principais tendências do nosso cinema na década conclusa.

Desde já, as 10 questões levantadas configuram um certo depoimento (ainda que em forma de perguntas) dos curadores sobre o período. Achei interessante publicá-las aqui como um aperitivo para a mostra. São elas:   

QUE PAÍS É ESSE?

Uma característica que acompanha o cinema nacional, desde as primeiras adaptações literárias afirmadoras de um caráter nacional, até o epicentro, o entorno e os desdobramentos do Cinema Novo, é a dos filmes empenhados em traçar a imagem do país em dado momento, do passado ou do presente, em busca de sintomas revelados por meio de indivíduos representativos ou grupos com sentido de panorama.

PARA ONDE VÃO NOSSOS HERÓIS?

A década foi pródiga em ficções e documentários centrados em personagens direta ou indiretamente conectados com a história brasileira, usando-os para refletir trajetórias e propor modelos de comportamento por meio de percursos (de superação ou de derrotas) com os quais se formam os “heróis brasileiros” do cinema atual.

O OUTRO: TEMER, TOLERAR OU CONHECER?

Reflexo talvez inevitável de um país com tantos contrastes internos, a produção brasileira do período nos trouxe uma enorme quantidade de filmes abertos a expor a relação entre opostos, seja pelas tentativas de aproximação, seja pelas tensões da convivência, construindo a sensação de uma alteridade quase inevitável e profundamente conflituosa.

QUAIS IMAGENS DO BRASIL LÁ FORA?

Ainda bastante frágil no contexto interno da cultura brasileira, o cinema nacional muitas vezes vai buscar fora elementos legitimadores, principalmente por meio dos maiores festivais de cinema do mundo. Aqui, tentamos pensar sobre quais imagens do cinema brasileiro foram mais circuladas, e definidoras de uma noção estrangeira do cinema produzido aqui.

QUE GÊNEROS SÃO NOSSOS?

Ao longo desses 10 anos, vimos nascer e/ou se confirmar três “gêneros” tipicamente nacionais como fonte de nossos principais sucessos de bilheteria: o filme que explora como ficção de ação (ou melodrama) a realidade violenta do país; as comédias calcadas em modelos/figuras eminentemente oriundas da TV; e, finalmente, os “filmes espíritas” (especialização da matriz do “filme religioso”). Por outro lado, outras tentativas confirmaram a pouca visibilidade com o público brasileiro de tentativas do nosso a partir de alguns outros modelos clássicos do chamado cinema de gênero.

SUBJETIVIDADE: MODO OU MODA?

O eu nunca esteve tão inflado no cinema brasileiro, em geral flagrado e construído em uma zona de conflitos, gerados por uma tensão com o mundo próximo. Essas manifestações subjetivas estão presentes na última década tanto em ficções como documentários, ora com personagens principais (invariavelmente na primeira pessoa) determinando a estética, ora com documentários nos quais o realizador se impõe como instância maior de relação com o material exibido.

DESLOCAMENTOS: PARA ONDE E POR QUE?

A década se voltou com freqüência para personagens em trânsito ou em conflito com seus lugares de existência, às vezes por conta de uma inadequação aos padrões do entorno, às vezes por uma insatisfação aparentemente intrínseca aos mesmos.

AÇÃO ENTRE AMIGOS: OPÇÃO, AFIRMAÇÃO OU NECESSIDADE?

Através da explosão e barateamento permitidos principalmente pelas várias revoluções digitais que o cinema passou na última década (como captação, mas também finalização e exibição), se fortalece a tendência de destaque de uma produção de características bastante “caseiras”, principalmente na maneira como os membros da equipe se relacionam entre si (um cinema da afetividade, de amigos). Neste contexto, as produções de três estados passaram a sobressair: Minas Gerais, Pernambuco e Ceará.

OBRA EM PROCESSO OU PROCESSO COMO OBRA?

Dispositivo e processo foram duas palavras constantemente trazidas à tona nos debates da década, seja no documentário seja na ficção – muitas vezes gerando inclusive uma produção que desafia de maneira evidente as fronteiras entre estas categorias. Em várias dessas obras a exposição de seu próprio processo de realização toma a frente na estrutura dos filmes.

O QUE PULSA ALÉM DOS LONGAS?

Se a história do cinema de um país nunca é contada apenas pelos longas que ele produz, essa realidade se tornou hiperpresente nos anos 2000, uma vez que a produção em outros formatos (principalmente os curtas) se multiplicou exponencialmente, ao mesmo tempo em que alguns autores buscaram na TV o local para realizar parte significativa de sua obra, seja em janelas tradicionais das grandes redes, seja a partir da criação de espaços na TV a cabo, se aproveitando de formatos criados dentro desta (como o DocTV ou os Retratos Brasileiros do Canal Brasil) para se manter filmando. E a internet, o que nos reserva?

Um comentário sobre “10 questões

  1. Oi Carlos,

    QUAIS IMAGENS DO BRASIL LÁ FORA?

    Achei este tema bastante interessante, em tempos de globalização.

    Não sei se você assistiu o ótimo documentário “Olhar Estrangeiro” (2006), da Lúcia Murat. Ela mostra os estereótipos e clichês da própria indústria do cinema (internacional) em relação ao Brasil em geral, e ao Rio de Janeiro em particular, ou seja, um total desconhecimento desta indústria em relação ao nosso país.

    Posso estar errado, mas a falta de distribuição dos nossos filmes no exterior (e também no Brasil) também é impressionante. Volta e meia, recebo e-mails de usuários do IMDb perguntando onde podem comprar determinado título nacional. Se o filme tiver sido lançado em DVD com legendas em inglês, eu geralmente informo sites nacionais (mas não sei se eles vendem DVDs para o exterior). Tente comprar ou alugar, por exemplo, “Limite” ou “Amor Estranho Amor”, só para citar dois exemplos de filmes com problemas de direitos autorais. Para não falar dos preços absurdos de distribuidoras tipo VF, que reduzem a distribuição interna de DVDs.

    Talvez o público de festivais conheça um pouco mais do nosso cinema. Mas no geral, acho difícil. É só você comparar a votação dos filmes nacionais no IMDb com a de filmes de outras nacionalidades.

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