O Cavalo de Turim

A produtora de Béla Tarr, Juliette Lepoutre, avisou à plateia do Moreira Salles no domingo: “O que vocês vão ver não é um filme, mas uma experiência de vida”. Ela não estava exagerando. Vivenciar os 145 minutos de O Cavalo de Turim é algo de quase físico, que extasia e exaure. Saí dizendo que minha roupa estava cheirando à fumaça daquela casa perdida num ermo qualquer, onde pai e filha passam seis dias à espera de que seu cavalo doente possa retomar as atividades que sustentam a família. Tudo é repetição e dolorosa rotina naquelas manhãs e noites que testemunhamos sob a luz fraca dos candeeiros ou sob o açoite dos ventos que não cessam do lado de fora. As imagens, a música igualmente cíclica, os sons rudes penetram em nossos poros como coisa vivida.

Apesar da insistência do meu amigo e cinéfilo-mor Julio Miranda, ainda conheço pouco da obra do húngaro Béla Tarr. Mas sei que nela a ideia de maldição está muito presente (Maldição, aliás, é o título do outro filme seu que vi domingo). Aqui, a história faz referência metafórica a um fato real. Nietzsche tentou proteger um cavalo das chicotadas de seu dono e, a partir daquele incidente, perdeu a voz e a razão pelos últimos 11 anos de sua vida. A chegada do velho com o cavalo à casa, na primeira cena, seria então subsequente àquele momento. O que passa a acontecer seria, quem sabe, o efeito de uma maldição. A vingança de Nietzsche, talvez.

O fato é que pai e filha, tal como aconteceu com o filósofo, começam a ser abandonados pela vida. Progressivamente, o cavalo se recusa a comer e a puxar a carroça, a água do poço seca, o fogo se recusa a manter-se aceso. Em dois momentos, eles são visitados por estranhos, a quem reagem com indiferença ou repulsa. Formam uma célula isolada e indivisível, como seres desde sempre expelidos (ou auto-expelidos) do mundo social.

Há muito o que observar e pensar enquanto se vê/vive o filme. Uma das coisas que me vieram à mente, a partir de uma sugestão do Júlio, foi a filiação bastante clara deste filme a clássicos do cinema mudo, especialmente escandinavos. O Dreyer de Dias de Ira, o Sjöstrom de O Vento e A Carroça Fantasma, e mesmo um Bergman a eles filiado como Noites de Circo. Nessa mesma linha evolutiva, vejo os filmes de Eduardo Nunes, tanto os curtas Terral e Tropel como o igualmente arrebatador Sudoeste.

4 comentários sobre “O Cavalo de Turim

  1. Pingback: Meus melhores de 2011 « …rastros de carmattos

  2. Pingback: Substantivo Plural » Blog Archive » O Cavalo de Turim

  3. Rapaz! Exaustão é o que se pode dizer, mesmo. Pra mim, foi uma tortura. A mise-en-scéne é sublime, assim como a fotografia em preto e branco. O desenho sonoro entranha. Mas, caramba, tava lutando com Morfeu o tempo todo. Chegou num ponto de sobrevivência que passei a usar estratégias: bem, a moça vai descarregar toda a carroçå ainda… posso cochilar mais uns 2 minutos. Juro! Acabei vendo outros filmes no mesmo filme, misturando meus sonhos idiotassincráticos embalados pela trilha sonora. O Paulo José tava na platéia e resistiu mais do que eu (mas ele pescou tb, que eu flagrei, aliviado). É… foi uma experiência torturante de vida.

    Fico imaginando aquele seu amigo (que sempre me esqueço o nome), daquela crítica engraçadíssima sobre Apichatpong (filme que gosto bastante) escrevendo sobre o Tio Boome montado no Cavalo de Turim, espirrando: “Nietzche!” E o Cavalo respondendo: “Saúde”.

    Ah, hoje vi “Histórias que só existem quando lembradas”. Fiquei maravilhado pelo filme e pela velhinha de copacabana ao meu lado, que se levantou ao final e, num monólogo mântrico berrante, foi saindo injuriada: “Ninguém merece! Ninguém merece!”

    Enfim, doido pra ver Sudoeste (do meu conterrâneo da UFF) e Coutinho. E reflexivo sobre essa safra brasileira contemporânea. Espero me juntar a ela.

  4. Depois ainda vem me dizer coisas do tipo “é muito para o meu caminhãozinho”. Faça-me o favor. Eu não vi nenhuma das referências mencionadas por você, mas tenho salvação: ventos incontestáveis me levarão ao Odeon essa semana. Mal posso esperar pelo Eduardo. Beijos ao farol da lanterninha vermelha (posso não saber nada de Bela Tarde mas de Zangado Imundo é meu mundo!)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s