Ronda noturna

RELATOS-SELVAGENSO primeiro episódio de RELATOS SELVAGENS, uma irresistível peça de humor negro aéreo (e uma piscadela ao último filme do seu produtor Pedro Amodóvar), eleva à potência “n” o componente dramático principal do filme: a revanche, um dos impulsos mais elementares da natureza humana e também da dramaturgia cinematográfica. É algo que nos diferencia dos animais selvagens que vemos nos créditos de abertura. Os bichos não se vingam. Os diversos episódios vão situar a revanche em diferentes contextos: o fracasso pessoal, a vendeta familiar, a traição conjugal, o stress urbano, a crítica social. A violência e eventualmente a morte chegam como paroxismos de uma cadeia de ações e reações que, descontada a vingança, aproxima os homens das feras. Se os personagens caminham para a perda de controle, o mesmo acontece com a narrativa de cada segmento. À medida que o racional vai sendo substituído pelo irracional na conduta das pessoas, o filme também segue esse rumo sem medir brutalidade e ironia feroz. Até o clímax no episódio do casamento, que parece um “Festa de Família” passado no hospício. Em casos como o dos explosivos e do atropelamento, ficou-me a impressão de que Damián Szifrón poderia ter terminado um pouco antes em benefício da concisão e da imaginação do espectador. De maneira geral, o filme excita a plateia justamente pelo apelo primordial da catarse e pela perícia da realização em dosar o suspense e liberar os instintos quando chega a hora. Seja como for, esta é mais uma demonstração da maturidade e da excelência artística e técnica do cinema argentino.

Tenho detectado uma certa má vontade da crítica para com TIM MAIA. Concordo que o aspecto de minissérie condensada impede que o filme atinja uma certa distinção no campo das cinebiografias musicais. Estou de acordo, principalmente, na rejeição aos excessos da narração em off do personagem Fábio, que muitas vezes soa redundante em relação às imagens e, pior ainda, oferece interpretações prontas ao espectador. Além disso, ainda vejo algumas sequências bastante mal ajambradas na montagem. Mas os aspectos elogiáveis são bem maiores, a começar pela qualidade das atuações, passando pela produção musical e a espirituosidade dos diálogos. É nas falas, em seu colorido, fluência e bom humor que se transmite a personalidade de Tim, desde as travessuras ingênuas da juventude tijucana até as barras pesadas da época de sucesso. É raro ver um filme brasileiro aproveitar tão bem as sugestões de cada situação e de cada período em benefício dos diálogos, e fazer das falas o material principal de cenas inteiras sem que elas pareçam meras ilustrações de uma pesquisa ou substitutos para o plano visual. Essa propriedade dos diálogos torna ainda mais evidente a impropriedade de parte da narração. De qualquer forma, o trabalho de Mauro Lima, dentro desse padrão médio de espetáculo, é profissional na forma e competente na comunicação do personagem. O tempo todo, eu vi o Síndico ali.

DEMOCRACIA EM PRETO E BRANCO, documentário ganhador de uma menção honrosa no É Tudo Verdade, traça três linhas paralelas no momento brasileiro do início dos anos 1980: a lenta e gradual abertura política, a explosão do Rock-BR e o surgimento da Democracia Corinthiana, período em que os jogadores compartilharam a direção do clube paulista, tomaram medidas socializantes e participaram ativamente das campanhas pela redemocratização do país. À frente dessa vanguarda futebolística estavam o roqueiro Casagrande, o sindicalista Wladimir e o intelectual Sócrates. Experiência singular no futebol brasileiro, era na verdade um ponto de convergência de várias forças progressistas latentes na sociedade da época, e que seriam amargamente traídas pela derrota da emenda das Diretas Já. O filme de Pedro Asbeg tem o mérito de fazer essas analogias bem claramente, embora para isso utilize uma linguagem estratificada de interposição de materiais de arquivo e entrevistas. A alternância de imagens alusivas a repressão e contestação, mais uma chuva de golaços, cria uma dinâmica bastante comunicativa, que traz novidades principalmente para plateias jovens ou menos familiarizadas com o documentário brasileiro recente. A Democracia Corinthiana, já abordada por Maurice Capovilla numa telessérie de 2005, ganha aqui uma visibilidade maior que estava mesmo a merecer.

miss violenceDemorei a ver MISS VIOLENCE. Estava tomando coragem – ou distância – para encarar um filme reputadamente desagradável. Mas talvez as situações exploradas naquela família neurótica, tiranizada por um avô capaz das maiores torpezas que se possa imaginar, não sejam o maior fator de desagrado, e sim a nulidade dramática de tudo o que se vê. Alexandros Avranas se limitou a pintar um quadro sórdido, revelado em conta-gotas, e fechar a tampa com um final catártico. Não há conexão entre os personagens e o pano de fundo da crise econômica da Grécia, uma vez que os fatos extrapolam qualquer razão econômica ou social. O autoritarismo, os impulsos doentios, as omissões e passividade patológicas da família estão fechados em si mesmos, como uma ferida coberta por muitas camadas de gaze. A encenação é claustrofóbica, pontuada pelas portas do apartamento (signos de ocultamento e revelação) e pela irrupção de tapas, desmaios, cortes. Os atores se comportam como zumbis, silenciosos e hieráticos, como se isso fosse necessário para caracterizar um grupo familiar “estranho”. No fim das contas, a melhor forma de apreciar o filme talvez seja aproximá-lo do gênero terror.

3 comentários sobre “Ronda noturna

  1. Pingback: Melhores de 2014 | ...rastros de carmattos

  2. “À medida que o racional vai sendo substituído pelo irracional na conduta das pessoas, o filme também segue esse rumo sem medir brutalidade e ironia feroz.” Também achei que – salvo o do prólogo- os episódio se esticam além do que mereceriam as piadas e situações inicialmente bem exploradas. E o filme grego é quase um horror em si mesmo sem dimensionar nada além do grotesco da situação. Não vi os outros dois ainda.

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