O costureiro e as meninas punk

SAINT LAURENT é obra de um estilista de cinema. Bertrand Bonello (“Tirésia”, “L’Apollonide”) não estava interessado em fatiar a vida de Yves Saint Laurent, como fez Jalil Lespert na biografia já exibida este ano. Em vez disso, quis passar um certo feeling Saint Laurent, um jeito de ver o ndo entre a ostentação ultrajante e a languidez sensual. Fornece, principalmente, uma iconografia YSL, forjada nos ateliês, boates e desfiles. Afora pequenas digressões no passado e no futuro remotos, o filme se concentra nos anos dourados 1968-1977, época também dos grandes mergulhos nas drogas, alucinações e crises de insatisfação. O sucesso parecia significar bem pouco para aquele espírito quase sempre acabrunhado. Junto ao companheiro Pierre Bergé, Yves canalizou para sua coleção de obras de arte a frustração de não ter sido um pintor como Matisse. Restava, portanto, explorar um certo estilo de vida, o que Bonello retrata muito bem. Nesse aspecto, ele dá a merecida atenção à coleção, o que fez muita falta no outro filme. Algumas observações sobre o personagem passam bem rápidas pela tela, enquanto outros episódios ocupam um tempo considerável, como uma detalhada reunião de negócios ou o persistente aliciamento da modelo Betty Catroux. A mise-en-scène de Bonello é deslumbrante, assim como as atuações e os trabalhos de fotografia, direção de arte e figurino. Louis Garrel, no papel do amante Jacques de Bascher, é filmado como uma diva, do jeito que Roger Vadim filmava Brigitte Bardot. E as aparições dos veteranos Dominique Sanda (mãe de Yves) e Helmut Berger (o venerando amante de Visconti no papel de Yves velho) trazem para o filme a ressonância de suas carreiras. Cinema de alta costura.

A sinopse de NÓS SOMOS AS MELHORES! não é das mais atraentes: três meninas de Estocolmo nos anos 1980 decidem formar uma banda punk do zero, e num tempo em que o punk já era. O filme é isso mesmo, um pequeno projeto de Lukas Moodysson que se vale da absurda espontaneidade de suas pequenas atrizes e da perspicácia com que põe em cena a inocência, os sofrimentos e o desejo de transgressão de garotas comuns. Bobo e Klara, amigas inseparáveis com jeitão de meninos, têm somente um punhado de teorias ingênuas sobre o punk, além de dois ou três versos na cabeça e nenhuma ideia do que seja um acorde musical. Praticamente colonizam uma coleguinha violonista de formação cristã para juntar-se a elas no projeto da banda. Vale a pena reparar como as discussões e os conflitos se resolvem por uma lógica democrática tipicamente escandinava, baseada nas negociações e na ausência de privilégios e de corrupção. Mas isso está num nível de leitura secundário. O que sobressai é uma crônica da adolescência como mundo à parte, à margem não só do universo dos adultos, mas também dos seus iguais – aí onde a importância da amizade pode salvar o coração, ainda que a música massacre os ouvidos.

Um comentário sobre “O costureiro e as meninas punk

  1. Pingback: Melhores de 2014 | ...rastros de carmattos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s