De amores, vacas e embargos

boasorte02-650x400Adaptado por ele mesmo de um conto seu, BOA SORTE carrega os genes de Jorge Furtado, mas a direção de Carolina Jabor também tem seus méritos para o bom resultado do filme. A química entre Deborah Secco e João Pedro Zappa se estabelece rapidamente e sustenta o interesse por esse melancólico romance ambientado numa clínica de recuperação de drogados. O tema da invisibilidade, que tanto aflige os adolescentes e jovens em situação de risco psíquico, é explorado em diversas camadas abrangendo o humor e o drama. Embora não haja uma curva dramática acentuada, a propriedade dos diálogos, a justa dicção naturalista e a bonita entrega dos atores (Deborah emagreceu 11 quilos) conduzem o filme com equilíbrio até uma das resoluções mais tristes que o cinema brasileiro apresentou ultimamente. Isso inclui o uso de uma bela animação nos diários da personagem e uma trilha sonora (mais uma!) tocante de Lucas Marcier, aqui com Fabiano Krieger. Uma história de amor insólita, sem dúvida, mas que me conquistou com sua pegada ao mesmo tempo prosaica e transcendente. Estranhei apenas a liberdade com que as drogas e as infrações rolam no interior da clínica, sem nenhuma vigilância aparente. E me diverti muitíssimo com Fernanda Montenegro pitando seu baseado.

The_wanted_18_StillTermina quarta-feira, dia 3, no Cinesesc (SP) a Mostra Cinema: Oriente Médio, que está apresentando 15 filmes, em sua maioria inéditos no Brasil. Tive acesso ao programa de abertura, o documentário palestino-canadense AS 18 FUGITIVAS (The Wanted 18). As protagonistas referidas no título são as 18 vacas que os habitantes de um vilarejo na periferia de Belém, Palestina, resolveram comprar em 1987 para suprir de leite a comunidade em lugar de continuarem adquirindo o produto de uma empresa israelense. Era época de Intifada e os moradores boicotavam o pagamento de impostos ao governo ocupante. As vacas leiteiras foram vistas como um grito de independência, um sério risco de segurança para as autoridades de Israel. Começou, então, a caça às vacas. O teor cômico do episódio se expressa através de quatro vaquinhas animadas em stop motion, na linha da série inglesa “Wallace and Gromit”. Mas as agruras e a resistência do povo de Beit Sahour são evocadas com seriedade ao mesmo tempo. O filme reúne os talentos dos diretores Amer Shomali, desenhista e animador que vivia sua infância em Beit Sahour na época, e Paul Cowan, célebre animador do National Film Board canadense. Eles fazem a narrativa fluir com naturalidade entre talking heads, animação em diferentes técnicas, materiais de arquivo dos anos 80 e cenas dramatizadas com atores. O documentário acaba sendo um belo exemplo de como contemplar as diversas dimensões – dramática, heróica, comportamental e pitoresca – de um fato histórico e elevá-lo a metonímia de um contexto maior.

Assisti na sessão extra da Semana dos Realizadores a A HISTÓRIA DA ETERNIDADE. O longa vencedor do Festival de Paulínia não bateu muito bem na minha sensibilidade. Compreendo que Camilo Cavalcante quis lidar com ingredientes icônicos da mística sertaneja, além de um conservadorismo que reprime os desejos e semeia a morte. São três histórias afetivas passadas num povoado remoto do agreste. Cada uma tem sua excentricidade: um sanfoneiro cego (de nome Aderaldo!) corteja uma mulher triste e solitária; uma menina se sente atraída pelo tio que tem alma de artista; uma mulher madura sente a visita da tentação ao hospedar um neto vindo de São Paulo. Numa linha bem diferente dos modernos cineastas que fazem hoje a fama de Recife, Camilo trabalha com o rural, o arcaico e o telúrico. Seu estilo também é peculiar, baseado numa certa solenidade que parece carregar o peso de um tempo muito antigo. Há imagens bem bonitas nesse longa, assim como uma trilha sonora faustosa de Zbignew Preisner (o compositor preferido de Kieslowski) e Dominguinhos. Mas algumas coisas me pareceram fora de lugar, seja nas performances estapafúrdias do personagem de Irandhir Santos, seja no lugar-comum do “pai nordestino autoritário” ou no desenvolvimento de Das Dores, a avó. A suposta ousadia na construção desses personagens toca por vezes a fronteira da cafonice e da má teatralidade.

Vi recentemente na televisão o longa-metragem EMBARGO, realizado em 2010 numa coprodução de Portugal, Espanha e Brasil (Diler Trindade). Trata-se da adaptação de outra distopia apocalíptica de José Saramago para as telas. O escritor, que já suspendeu a morte num país e fez o mundo quase inteiro ficar cego, narrou nesse conto homônimo a crise que um embargo de combustíveis provoca num certo país e especialmente num certo homem. O filme adicionou ingredientes à trama original, restrita à relação entre o protagonista e seu carro. Nuno, vendedor de fast food e inventor de um escâner de altíssima definição para a indústria de sapatos, subitamente vê-se escravo do seu velho automóvel. Escravo mesmo. Não consegue mais se despregar do assento e sair do carro. A metáfora, um tanto óbvia, é desenvolvida enquanto Nuno tenta, em sua esdrúxula condição, negociar o invento com empresas e atender às demandas da mulher e da filha. A produção reduz custos ao suprimir as imagens de caos e desordem, preferindo concentrar-se no drama do personagem num lugar já desabastecido e esvaziado. É como se toda a desgraça se condensasse nele. Apesar da lentidão, que às vezes chega à lerdeza, o filme tem um ótimo planejamento espacial das locações, uma fotografia caprichada e uma trilha sonora muito sugestiva, de músicas fortes e ruídos inquietantes. De qualquer forma, a redenção de Saramago no cinema continua como uma fruta inalcançável em árvore altíssima.

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