ÉTV: A Noite Chegará

Quem viu, viu. O Rio de Janeiro só teve direito a uma sessão de A Noite Chegará, um dos documentos mais impressionantes sobre a indústria da morte levada a cabo pelos nazistas na II Guerra Mundial. Não que já não soubéssemos de tudo aquilo. Não que já não tivéssemos visto muitas daquelas imagens. Mas elas apareciam sempre (a exemplo dos curtas Death Mills, de Billy Wilder, e Nuit et Brouillard, de Alain Resnais) como ilustrações de um discurso contra o genocídio e a desumanização. Aqui as imagens atingem nossas retinas apenas como o que são: pilhas e mares de cadáveres sendo carregados e atirados em gigantescas valas comuns, esqueletos queimados ainda dentro dos fornos crematórios, moribundos que quase não se distinguem dos mortos ao seu redor, montanhas de pertences e partes de corpos arrancados de seus donos. Poucas coisas justificariam mais o adjetivo de dantesco.

Andre Singer fez um documentário sobre outro documentário. German Concentration Camps Factual Survey foi preparado na Inglaterra entre 1944 e 1946, à medida que as tropas aliadas avançavam pela Alemanha e liberavam campos como Bergen-Belsen, Auschwitz, Buchenwald e Dachau. Oficiais cinegrafistas ocupavam-se de registrar o horror encontrado, assim como filmar os sobreviventes em mórbidos cortejos entre as cercas de arame farpado do campo. Tudo serviria como evidências do genocídio nazista num filme coordenado por Sidney Bernstein com participação de Alfred Hitchcock no roteiro final.

Contudo, as injunções geopolíticas que se seguiram à guerra determinaram que o projeto fosse arquivado. A Inglaterra temia o crescimento do sionismo e tentava poupar a Alemanha como possível aliado na Guerra Fria. O material seria usado em outras produções e como provas do Holocausto nos julgamentos dos nazistas. Só recentemente seria retomado na íntegra pelo Imperial War Museum e daria origem ao telefilme Memory of the Camps. Toda essa história é contada neste A Noite Chegará. Alguns sobreviventes que aparecem nos filmes da época relembram hoje o pesadelo dos campos e a alegria de ver os aliados chegarem com a salvação. Branko Lustig, produtor de A Lista de Schindler, recorda-se que, ainda menino prisioneiro de Bergen-Belsen, achou que estava literalmente morrendo e chegando ao céu ao ouvir as gaitas dos soldados escoceses ecoando do lado de fora do barracão.

Cinegrafistas comentam como o estilo de filmagem devia ser sóbrio e em planos longos, de modo a não permitir qualquer acusação de falsificação. O montador do filme fala do horror diante das imagens que chegavam à moviola, especialmente enquanto estavam no negativo. O processo de reumanização dos sobreviventes é uma das partes mais comoventes do filme, ao passo que a assistência e destinação de tantos milhares de pessoas representavam um problema de monta para os países aliados. Daí surgiria a ideia de retorno à Palestina e a criação do Estado de Israel. ♦ ♦ ♦ ♦

P.S. O filme está disponível na íntegra em inglês sem legendas no Youtube.

4 comentários sobre “ÉTV: A Noite Chegará

  1. Pingback: Melhores de 2015 | ...rastros de carmattos

  2. Carlinhos: divulguei este seu texto, como sempre excelente, mas muita gente ficou querendo conhecer o filme. Uma dessas pessoas garimpou e descobriu que estaria no YouTube; ainda não vi todo, mas comecei e parece ser fato pois tem 1 hora e 14 minutos de duração; o link é https://www.youtube.com/watch?v=KSrRWhhiigM

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