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Memórias e convicções políticas foram abaladas ontem com a exibição, na mostra competitiva do 25º Cine Ceará, do documentário Cordilheiras no Mar: A Fúria do Fogo Bárbaro, de Geneton Moraes Neto. A promessa era de um filme sobre Glauber Rocha em que não se falaria de cinema, mas só de política. Nada tão impossível, uma vez que Glauber era, de certa forma, tanto um político que fazia cinema quanto um cineasta que fazia política. A exuberância oral e escrita do baiano constitui um manancial aparentemente inesgotável. E Geneton trouxe à luz mais algumas peças desse imenso quebra-cabeça.

Cordilheiras do Mar fala do projeto político de Glauber para um Brasil revolucionário tendo a imagem de Nossa Senhora levada à frente. Pelo menos é essa a cena proposta por ele a Janio de Freitas, um dos muitos entrevistados no filme sobre suas relações com Glauber. Essa ideia de uma revolução sincrética, autóctone e terceiro-mundista sofreu um choque em 1974, quando ele deu declarações bombásticas apontando os militares como “os legítimos representantes do povo”, apostando em Geisel como arauto da redemocratização e chamando Golbery de “gênio da raça” comparável a Darcy Ribeiro. O episódio gerou uma das maiores polêmicas políticas do Brasil recente e nunca deixou de voltar à discussão.

O filme de Geneton reabre o debate trazendo de volta a furadíssima tese do “assassinato cultural” de Glauber. Mas aporta também novos matizes através de cartas e testemunhos de jornalistas, cineastas e políticos. Há depoimentos inéditos de gente como o crítico francês Serge Daney, o cineasta Jean Rouch, o líder camponês Francisco Julião e Miguel Arraes. Em gravações recentes, Orlando Senna, Cacá Diegues, Zuenir Ventura, Flavio Tavares, Luiz Carlos Maciel, Luiz Carlos Barreto, Jards Macalé, Jaguar, Caetano Veloso, Zelito Viana, Reis Velloso e Raimundo Fagner relembram “causos” reveladores do misticismo, do histrionismo e do grão de delírio que se embolavam nas concepções políticas de Glauber. Uma das informações mais relevantes é que o voto de confiança em Geisel não partiu originalmente de Glauber, mas de conversas privadas dele com Jango e Miguel Arraes, todas devidamente testemunhadas.

O ator Claudio Jaborandy faz uma ótima personificação de Glauber falando o texto de uma substanciosa entrevista ao jornalista baiano Jary Cardoso em 1978. Além disso, temos atores fazendo declamações e até exibições de dançarinos de passinho. Tudo isso fornece ao documentário uma dinâmica atraente, menos pesada que em outros docs anteriores do diretor.

Ainda assim, e apesar do carisma dos entrevistados, o filme acaba se tornando um pouco reiterativo. As verves de Glauber e Geneton se juntaram para tocar a fronteira do excesso, com assuntos se repetindo em variações às vezes tênues. Mas o que representa o maior risco de Cordilheiras do Mar, a meu ver, é sua audaciosa composição dialética. Para refletir a complexidade do pensamento de Glauber, especialmente naquele episódio, Geneton reúne pontos de vista bastante contrastantes. Em certos momentos, a coisa parece tomar um rumo revisionista do papel dos militares (há até dobrados militares na trilha sonora). A crítica à esquerda é quase incessante, culminando com a imagem final de um rapaz sendo engolido pelo mar com uma bandeira vermelha em punho.

Geneton quis dar a esse filme o tom de um chamado às consciências políticas atuais no sentido de se abandonar o maniqueísmo ideológico e retornar à complexidade das nuances e do contraditório. É a isso que se referem as falas reservadas pela edição para o final. Dado o estado de ânimo que prevalece hoje no país, é bem possível que o filme seja recebido com desconfiança ou mesmo rejeitado por quem nunca abandonou suas convicções.


Também na mostra competitiva ibero-americana foi exibido ontem o filme de ficção peruano  NN, de Héctor Galvez. O tema são os desaparecidos políticos, mas a mirada é bastante original. Trata do dilema ético de um antropólogo forense diante da ossada de um homem que não tem como ser identificado. A única pista é a foto de uma moça encontrada no bolso de sua camisa. Uma mulher reclama o corpo como sendo do seu marido, mas, apesar de uma peça de roupa comprobatória, as demais evidências não confirmam o parentesco. Fidel, o perito, é um homem em crise pessoal e, de alguma forma, acaba se identificando com o esqueleto a seus cuidados.

NN (título referente às iniciais de “non nomine”, como são classificados os corpos não reconhecidos) trabalha os detalhes do processo de exumação, reconstituição das ossadas e das roupas, identificação e reclame dos restos mortais dos desaparecidos. Fala, ainda, do descaso institucional com esse trabalho, uma das razões que levam Fidel a uma decisão sui generis no desfecho do filme. A hipótese de a foto da moça ser de uma amante clandestina traz um certo mistério melodramático que funciona bem no subtexto. Já as razões do estado depressivo de Fidel não ficam muito bem esclarecidas. Ainda assim, Héctor Galvez, em seu terceiro longa, demonstra um estilo sóbrio, um ritmo meditativo e uma segura eleição do foco dramático em que se concentrar. É possível estabelecer um diálogo entre esse filme e Nostalgia da Luz, de Patrício Guzmán, e Memória para Uso Diário, de Beth Formaggini.


Na mostra do Novo Cinema Espanhol vi Nem Tudo é Vigília, um misto de documentário e ficção filmado por Hermes Paraluello com seus avós. As cenas se desdobram na cadência compassada do casal de velhinhos entre a casa onde moram sozinhos numa pequena cidade e os hospitais onde o homem passa períodos de internação e a mulher faz exames de saúde. A opção de se mudar para um asilo é descartada logo no início. A lenta e penosa rotina caseira é observada devotadamente pelo cineasta, que aos poucos insere ali um fiapo de trama ficcional. Antonio recebe uma certa convocação burocrática e Felisa passa a chantageá-lo emocionalmente para ele não sair de casa.

Basicamente, o filme é o flagrante de uma união antiga e sólida. “Casamo-nos para dormir na mesma cama”, diz Felisa, reclamando a proximidade do marido, que decidiu dormir em cama separada. Nada de excepcional acontece, apesar do espectro da morte muito iminente e fartamente mencionado. “Santa Ana, uma boa morte e pouca cama”, pede ele numa oração. De resto, são os tempos mortos da apatia senil, entrecortados pelo tema obsessivo do passado, as lembranças miúdas que compõem a vida em comum. Lembrei-me de dois outros filmes: o português A Nossa Forma de Vida, de Pedro Filipe Marques (observação minuciosa do cotidiano de um casal idoso encerrado numa torre de vidro na cidade do Porto) e o brasileiro Ela Volta na Quinta, em que André Novais mescla a realidade dos seus pais com um enredo de traição que eles sutilmente passam a representar.

Entre os curtas que vi ontem, o que mais me chamou a atenção foi o espanhol A Paixão de Judas, de David Pantaleón, que reencena livremente a Última Ceia, a traição e a malhação de Judas com internos de uma clínica psiquiátrica. A irreverência se dá não somente em relação ao episódio bíblico, como ao agenciamento daqueles atores especiais numa performance relativamente ácida. No pano de fundo está o caráter satírico de certas tradições rurais espanholas, já tematizado em filmes de Buñuel.