Festival do Rio: Cinema Novo + Os Cravos e a Rosa

CINEMA NOVO, vencedor do  “Olho de Ouro” de melhor documentário entre todos os apresentados no último Festival de Cannes, é um primor de compilação fílmica. Eryk Rocha fez dezenas de horas de entrevistas atualizadas com personagens do Cinema Novo, mas acabou deixando tudo isso de fora, a não ser por alguns fragmentos de áudio. Na imagem, além dos trechos de filmes, ficaram somente depoimentos de cineastas tomados nos anos 1960 ou 70. A imersão na época, portanto, é praticamente total. E a seleção, inserção e “conversas” criadas entre as cenas de filmes, na montagem tonificante de Renato Vallone, potencializam o vigor cênico, a qualidade artística e a energia política do movimento.

Movimento? Sempre houve, entre os próprios cinemanovistas, o discurso de que existiram “vários Cinemas Novos”, com temas, preocupações e estéticas razoavelmente distintas. Essa tese, repercutida também no filme, é confrontada com o trabalho de compilação, que aponta grandes linhas de unidade correndo dentro da diversidade. Lá estão as armas, os êxtases, as corridas desabaladas pelo campo ou pela cidade, as imagens de agonia e dissolução, os indivíduos na estrada, as favelas, sambistas, bares e ruas que ficaram como distintivos de um momento glorioso da cultura brasileira.

Vertoviano, o doc integra filmes e bastidores num fluxo irresistível de imagens-ideia. É o movimento em movimento. Navegando, por exemplo, da máquina de costura de Limite a uma moviola, e dali à costura das redes de Arraial do Cabo, Eryk tece uma genealogia do Cinema Novo, que vem até seus herdeiros, como Iracema, de Bodanzky e Sena, A Idade da Terra e Eles não Usam Black-tie. O golpe de 64 e o AI-5 ferem a carne do cinema e deixam marcas de tensão e dor. A estupenda edição sonora transcende o material original para criar uma suíte arrebatadora.

Os registros preciosos incluem Mario Carneiro, Leon Hirszman e outros disputando uma animada partida de ping-pong, uma divertida sucessão de cineastas dando depoimentos em francês, Luiz Carlos Barreto apresentando a Difilm e muito mais. Pode-se questionar a ausência de imagens de O Pagador de Promessas (a eterna polêmica…) e a inclusão de Jardim de Guerra, de Neville d’Almeida, bem mais identificado ao Cinema Marginal. Mas Cinema Novo vem aí para isso mesmo: recolocar o movimento em discussão, 50 anos depois do seu auge.

Muito oportunamente, CINEMA NOVO está sendo exibido no festival junto com o curta português OS CRAVOS E A ROCHA. Este resgata um momento menos conhecido da carreira de Glauber Rocha, quando ele participou do documentário As Armas e o Povo  em plena eclosão da Revolução dos Cravos, em Portugal, 1974. Disposto a questionar e provocar as pessoas na rua, principalmente nos bairros populares de Lisboa, quanto ao momento vivido pelo país e o futuro da revolução, Glauber atuou na frente das câmeras. Sua única exigência foi que o mantivessem sempre dentro do quadro.

A diretora portuguesa Luísa Sequeira ouve membros da equipe do filme, como Antonio Escudeiro e Fernando Matos Silva, sobre as circunstâncias da filmagem, e Joel Pizzini sobre o significado daquele trabalho no conjunto da obra de Glauber. Segundo Pizzini, As Armas e o Povo foi, ao mesmo tempo, uma extensão do hábito de Glauber de entrar no quadro de alguns dos seus filmes e um laboratório para o programa Abertura, que ele faria para a TV ao voltar para o Brasil. Foi também um vínculo artístico e político do diretor brasileiro com a terra lusitana que haveria de acolhê-lo em seus últimos anos de vida. Quando enfileirava perguntas aos portugueses e quase não deixava tempo para reponderem, Glauber no fundo interrogava a si mesmo sobre o sonho eterno da revolução.

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