Jutra, Columbus, Ozon, Rocha

Mon_oncle_Antoine_posterA mostra do Cinema Direto Canadense (Caixa Cultural RJ) exibe amanhã (sexta), às 17h, o melhor filme canadense de todos os tempos, pelo menos na opinião reiterada da crítica local. MEU TIO ANTOINE, de Claude Jutra, foi realizado em 1970, mas sua ação se passa na década de 40, antes da Revolução Tranquila, que laicizou o estado e instituiu o sistema de bem-estar social no país. Numa província mineira isolada, a vida e a morte passam pela empresa do velho Antoine e sua mulher, que compreende o armazém geral e os serviços funerários. Benoit, adotado pelo casal, vive os ritos de passagem da adolescência, a descoberta do sexo, da morte e da culpa. É pelos olhos dele que vemos o dia-a-dia do lugarejo, dominado pela igreja e o comércio. No fundo, o filme é um conto de Natal “negro”, atravessado por uma visão inocente, mas dura, da morte. Claude Jutra, que faz o papel de um empregado do armazém especialmente interessado na patroa, dirige o filme como se pintasse um painel de detalhes sobre um tempo já distante. Uma espécie de Norman Rockwell um pouco mais sombrio. A fotografia colorida de Michel Brault é de uma beleza austera, longe do seu habitual estilo documental e especialmente brilhante na grande sequência decisiva em que Antoine e Benoit viajam na neve para buscar o cadáver de um menino. Eis a oportunidade de conferir um filme de rara aparição por aqui e de suma importância histórica.


pixelsTenho fugido de blockbusters como bonecos de videogame têm que escapar de zumbis. Mas resolvi dar uma chance a PIXELS, e não me arrependi. Filmes que confrontam o presente com o passado sempre me despertam curiosidade. Mas o melhor foi ver que o filme de Chris Columbus subverte o olhar habitualmente nostálgico que se lança sobre os gadgets e costumes que ficaram para trás. Aqui os personagens de PacMan, Space Invaders, Donky Kong, Galaga e outros jogos dos anos 1980 são alienígenas agressivos que, três décadas depois, desembarcam na Terra dispostos a desintegrar tudo em zilhões de pixels. Para salvar o mundo, são convocados três antigos campeões das maquininhas. Ao mesmo tempo que joga com a inocência dos velhos jogos e a infantilização dos homens de hoje, PIXELS faz gato e sapato da paranoia militar americana, das formalidades da Casa Branca e das fantasias que alimentavam os videogames de outrora. As situações rendem diálogos muito engraçados, pelo menos até o filme entrar em banho-maria no seu terço final. A mistura equilibrada de ação, comédia e ficção científica faz lembrar um tipo de blockbuster que está desaparecendo das telas: aquele em que as ideias prevalecem sobre a histeria, e a simpatia sobre a boçalidade.


François Ozon e suas transgressões meia-bomba estão de volta em UMA NOVA AMIGA, história da amizade indestrutível entre duas amigas de infância e que se prolonga para além da morte de uma delas. A forma como isso acontece tem a sinuosidade de um filme noir – e não é à toa que a morta se chama Laura, como no clássico de Otto Preminger. Sem querer adiantar muito da trama para quem ainda não viu, basta dizer que estamos na mesma linhagem de “Glen or Glenda”, o “crássico” de Ed Wood sobre crossdressing. Claire, a amiga sobrevivente, refém de um casamento convencional, passa a cuidar do marido de Laura e dar vazão à ambiguidade sexual que trazia latente. Ozon parte de uma situação de segredo e cumplicidade para explorar os caprichos da lei do desejo. Uma atração sexual pela amiga, reprimida desde sempre, vai se canalizar de maneira surpreendente em direção a uma inesperada reencarnação meio fantasmática. Não há intenção de fazer um estudo de gênero e identidade sexual, e sim um divertimento que às vezes ronda o ordinário, mas se redime pela leveza do toque do diretor e pela qualidade das atuações de Romain Duris e Anaïs Demoustier. Se você em algum momento se lembrar de Almodóvar, saiba que “Carne Trêmula” foi também baseado num livro de Ruth Rendell.


Em CAMPO DE JOGO, Eryk Rocha filma uma partida de futebol sem dar muita importância para a bola. De saída, ele altera profundamente a lógica dominante para câmeras e olhos, que é seguir a pelota para onde ela vá. Eryk se fixa, porém, nos rostos dos jogadores, no vai-e-vem e na dança dos pés sem bola, em detalhes que usualmente passam desapercebidos (o jogador “limpando” o chão antes de bater uma falta, por exemplo), na movimentação dos espectadores ou na superfície do campo de terra da comunidade em Sampaio. Estamos acompanhando (se é que podemos usar esse verbo) a final de um campeonato entre times de favelas do Rio. Às vezes uma câmera entra em campo e quase se embola com os jogadores, mas na maior parte do tempo o que interessa é compor uma espécie de suíte audiovisual com os corpos em ação e uma trilha sonora baseada em ruídos de trem e disparos, riffs de tensão, batuques afro, gritos de técnicos e comentários de circunstantes. A intenção de oferecer uma dramaturgia diferente para o filme de futebol começa a fazer água quando entram flashes de outros jogos, vinhetas encenadas e música clássica e operística. A unidade do jogo principal se quebra em troca de digressões de menor importância. A grande final do torneio simplesmente não sustenta a arquitetura mais ambiciosa que Eryk e seu montador Renato Vallone quiseram levantar. Como os recursos de edição se repetem desde o início, a narrativa chega a um ponto onde não tem mais como progredir. O fluxo fica aleatório e o filme ganha uma cara de zero a zero.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s