O que vi na Semana dos Realizadores

A seguir, minhas pílulas críticas sobre oito filmes vistos na VII Semana dos Realizadores e já publicadas nas redes sociais.

Convidado através do Forum de Berlim e do festival gaúcho Cine Esquema Novo para a Semana dos Realizadores, THE FORBIDDEN ROOM, de Guy Maddin, provocou uma pequena debandada, a primeira vez que presencio isso na Semana. Não atribuo somente à duração do filme (130 minutos) nem à ausência de equipe na sala. O fato é que o filme não é para todos os gostos, nem mesmo entre o público da Semana. Visando originalmente uma apresentação de live cinema e uma web-instalação, o mais provocativo cineasta canadense da atualidade partiu de créditos e intertítulos de filmes mudos não realizados e imaginou 17 histórias que se entrelaçam, cobrindo gêneros clássicos hollywoodianos como o seriado de aventuras, o romance oriental, o filme de horror, o thriller psicanalítico, o musical e o drama de sobrevivência. Tudo, porém, em chave surrealista, paródica, psicodélica e ao mesmo tempo sombria.

Um filme em processo de desintegração. As imagens tremulam incessantemente, se esfarelam e dissolvem na tela. As ideias de conjunto e narratividade se desintegram pela forma delirante como uma coisa leva à outra. A montagem aos solavancos chega às vezes muito próximo da animação. E ainda assim, temos um filme coerente em sua sintaxe delirante. As colorações e enquadramentos remetem ao expressionismo, aos filmes colorizados artificialmente e à estética dos efeitos especiais primitivos. Os intertítulos combinam a função tradicional de narrar com uma camada de poesia absurda e referências labirínticas, por onde é uma delícia se perder. O elenco traz participações luxuosas de várias nacionalidades, como as de Charlotte Rampling, Mathieu Amalric, Geraldine Chaplin, Udo Kier e Maria de Medeiros. Maddin operou a câmera principal e contou com a parceria de Evan Johnson na pesquisa e nos efeitos visuais. Fez um trabalho bem à sua moda: ambicioso, experimental, fetichista e formalmente brilhante. Sintam o trailer.


A proposta de O TOURO é bastante engenhosa. A atriz portuguesa Joana de Verona visita a ilha de Lençóis, no Maranhão, onde reina a lenda de que Dom Sebastião, rei de Portugal de destino incerto, teria aportado ali e se “encantado”, transformando-se num touro. Dele descenderiam todos os habitantes da ilha. Joana passeia pelo lugar, interage com moradores, conversa com pescadores, artesãos e pais-de-santo. Para os maranhenses, ela pode ser a filha do rei. Para Joana, nascida em São Luís do Maranhão, é uma volta à raiz de suas raízes.

Larissa Figueiredo concebeu um filme que, assim como a personagem central, também deriva do documentário interativo para a ficção fantástica. Joana vai sendo gradativamente absorvida pelo misticismo do lugar e se aproximando de um destino mágico. Há boas soluções narrativas e uma razoável imersão no imaginário da ilha, mas há também limitações visíveis em relação ao caminho pretendido. Joana demonstra certa timidez no contato com os personagens reais e nas cenas de exploração do ambiente, por vezes aparentando mais alheia do que observadora ou afetada pelo entorno. Alguns momentos parecem alongados além do conveniente, e nem sempre o diálogo entre documentário e ficção acontece com fluência. A criação de paisagens sonoras inquietantes para quebrar o realismo do som direto surte efeito ora justificado, ora invasivo e supérfluo, como na sequência do candomblé.

Mesmo com esses senões, O TOURO resulta uma experiência curiosa e impregnante, como a de um etnógrafo que se deixasse contaminar pela magia do que estuda.


O diretor Bernardo Cancella Nabuco alertou a plateia da Semana dos Realizadores antes da projeção: “É um filme difícil sobre um tema árduo”. URUTAU é um huis-clos sobre pedofilia. O adolescente Fernando é mantido preso há sete anos num quarto sem água corrente, à mercê dos caprichos de Josias, homem maduro, religioso e manipulador. Josias o infantiliza fetichisticamente, e não se sabe até que ponto é também escravo de sua paixão. Quanto a Fernando, ora parece ceder com algum prazer a essa relação masoquista, ora é visto sofrendo nos atos sexuais. O filme expõe essa situação com lentidão exasperante, planos-sequência longos e fixos, ambientação crua e taciturna. O desfecho se precipita quando Fernando se vê subitamente diante da perspectiva de enfrentar a liberdade. A Síndrome de Estocolmo não explica tudo, pois o medo e a dependência nutridos pela puerilização também fazem sua parte.

O argumento era originalmente de um curta, ampliado para comportar a linguagem distendida que o diretor almejava. Não acho que a opção foi feliz. URUTAU daria um curta bom e forte. Como longa, parece um exercício de saturação, cujos silêncios pretendem muito e oferecem pouco. Destaque-se a compenetração dos atores e principalmente a qualidade das reações faciais e corporais de Nicolas Sambraz no papel de Fernando. O título refere-se a um pássaro de hábitos solitários e canto triste, embora não seja do tipo ou porte de viver engaiolado como serviria à metáfora do filme. Não há qualquer relação com o filme homônimo de 1919, estreia da atriz Carmem Santos no cinema.


Um índio filma do topo da Aldeia Maracanã. Um repórter grava a si mesmo enquanto é levado preso dentro de um camburão da polícia. Um editor trabalha imagens na ilha fumando um baseado. Um cartunista rabisca uma cena de manifestação. Lances como esse definem o espírito de VOZERIO. Em foco, não apenas as ações de protesto anticapitalista que tomaram o Rio em 2013, como também diversos processos de formação de conteúdo audiovisual, gráfico e artístico sobre e a partir do movimento.

Tendo a resistência da Aldeia Maracanã como ponto de partida e de chegada, o filme é um painel de vozes rebeladas contra o sistema financeiro, a democracia representativa, o estado policial e a lógica burguesa. Falam desde um esquerdista veterano como Silvio Tendler a um militante anarquista como Luís Carlos Alencar, cineasta e parceiro do diretor Vladimir Seixas. Participam ativistas, performers radicais, fotógrafos e artistas engajados. Nem todos conclamam diretamente à rebelião popular e à chamada ação direta, assim como poucos apresentam suas ideias de forma objetiva e coerente, mas esse é inegavelmente o tom predominante. Estamos em algum lugar entre a reportagem simpatizante e o filme participante.

Como registro dos acontecimentos de 2013 na cidade, VOZERIO chega um bocado atrasado, mas tem a vantagem de ser talvez o melhor conjunto de flagrantes dos conflitos de rua reunido até agora. Tratadas e editadas com qualidade e vigor, essas cenas ainda podem assombrar, incomodar ou entusiasmar, conforme o perfil político de cada espectador.


SEM TÍTULO #2: LA MER LARME dá curso à depuração do luto (mar de lágrimas?) de Carlos Adriano pela perda de seu companheiro e parceiro, Bernardo Vorobow. O média de 31 minutos compila trechos de poemas e velhos fragmentos de filmes (de 1891 a 1900) ao som de inúmeras versões da canção francesa “La Mer”, de Charles Trenet. As imagens recorrentes de dois homens conversando num convés e três outros navegando num pequeno barco insinuam uma homoafetividade distante, subjacente ou mesmo romântica. Por fim, flashes de Bernardo e Adriano, assim como radiografias de um cateterismo de Bernardo, concluem o filme-poema como numa assinatura.

Referências pessoais à parte, é mais um opus na já longa paixão do artista pelo cinema dos primórdios. Lá está o famoso plano de Cunha Sales (1897) retrabalhado por Adriano em “Remanescências”, junto a filmes de Étienne-Jules Marey, dos irmãos Lumière, de Thomas Edison, etc. Essas curtas tomadas sofrem aqui uma pletora de intervenções (negativo, inversões, sobreposições, loopings, apagamentos bruscos), enquanto a música é também randomicamente fragmentada, resultando numa total ausência de qualquer padrão audiovisual identificável. A dissociação de sentidos entre música e imagens, afora o tema comum do mar, remete ao procedimento do filme anterior de Adriano, “Sem Título #1: Dance of Leitfossil”, que aplicava a dança de Fred Astaire e Ginger Rogers a um improvável fado.

Esses dois filmes são parte da série “Apontamentos para uma AutoCineBiografia (em Regresso)”, que vai mostrando o realizador imerso – mergulhado, seria aqui mais adequado dizer – no seu material de pesquisa. Na verdade, tem sido assim desde “Santos Dumont – Pré Cineasta?”, filme montado após a morte de Bernardo. Mas nesse trabalho, pela primeira vez em muitos de seus filmes, vejo uma certa margem de arbitrariedade e reiteração. LA MER LARME foi feito entre 2009 e 2015. Talvez seja o balanço de uma fase de sua obra e um trampolim para um próximo estágio que Astaire e Ginger, aliás, já anunciavam.


Apesar da sátira um pouco óbvia e às vezes até ingênua à administração Eduardo Paes, O PREFEITO (ontem na Semana dos Realizadores) tem seu charme e muito senso de oportunidade. O prefeito vivido por Nizo Neto (da Escolinha do Professor Raimundo) tem seu gabinete montado no meio dos trabalhos de demolição do Centro do Rio. Entre montanhas de pedras, ele se diverte com uma maquete de pedras e com uma pedra de crack fornecida pela misteriosa “Alma Errante” (Djin Sganzerla). Quer ser grande como Getúlio e transformar o Rio numa cidade bonita, “rica para todos” e, se possível, separada do resto do Brasil. Sua pauta de realizações soma projetos reais das prefeituras de Rio e São Paulo a outros mais ou menos utópicos, como reconstruir o Palácio Monroe. Numa possível fantasia noturna, ele é um homeless que vagueia pelo Centro.

Mesmo trabalhando com o baixo orçamento do projeto Telha Brilhadora (que reúne quatro filmes), Bruno Safadi demonstra capricho na composição das imagens e no desenho do som. Algumas sequências são narradas com fotos fixas, numa referência esperta ao fotojornalismo como parte da sátira ao métier dos gabinetes de políticos. Nizo Neto dá um show, culminando numa performance hilariante em rua do Saara. O PREFEITO tira um sarro ocasionalmente divertido das ambições dos homens públicos, felizmente passando ao largo dos clichês do coronelismo televisivo. A caricatura, mais afinada com uma releitura contemporânea da chanchada, conclui com uma metáfora brilhante da automonumentalização.


ORIGEM DO MUNDO (ontem, quarta, na Semana dos Realizadores) é o único documentário entre os quatro integrantes do projeto Tela Brilhadora. Aborda as inscrições pré-históricas em pedras, lajedos e cavernas do interior do Brasil, especialmente na Paraíba. Em lugar de buscar o esclarecimento científico e o comentário poético, como fizeram Werner Herzog em “A Caverna dos Sonhos Esquecidos” ou Patricio Guzmán em “Nostalgia da Luz”, o diretor Moa Batsow pontuou seus registros com textos do pioneiro estudioso Bernardo Silva Ramos (1931) na voz de João Miguel e o disse-me-disse de sertanejos. Num dado momento, a exploração da fala desmantelada de um homem do campo chega a tocar o limite da zombaria.

Mas grave mesmo é o desmazelo na filmagem dos desenhos e signos rupestres. Uma câmera trôpega se desloca pelos cenários, com erros graves e frequentes de foco, além de uma montagem amadorística que compromete seriamente as intenções documentais. Aquele não é um assunto para ser filmado como num exercício escolar ou num passeio de turista. A trilha sonora obsessiva e finalmente selvagem de Guilherme Vaz pouco pode fazer para evitar o desperdício artístico de um objeto de tamanha importância.


GAROTO é o título. Mas quem está em cena é uma moça faladeira e um rapaz que entra mudo e sai calado. Entre a Floresta da Tijuca e a Rua Aperana, ela lhe diz coisas vagas e “profundas”, além de contar a história do garoto (o título!) canhoto que gostava de matar. Logo em seguida estarão na casa de uma amiga dela. Ele vai cometer um crime enquanto a câmera se desvia para uma estatueta. Corta para o sertão nordestino de “São Jerônimo”, onde eles vão se reencontrar e medir forças com a Natureza.

Temos um pouco de reflexividade também: a voz do diretor é ouvida em alguns momentos, a câmera por vezes toma o lugar do rapaz embatucado e ganha até um boquete em POV. Quando ela diz que seu ombro pensa por ela, somos premiados com um close do tal ombro pensador. Abundam os contra-plongês de pessoas e árvores, assim como as sinfonias de pássaros, cães, gotejares e ruídos de vento no microfone. É a trilha sonora realmente ousada de Guilherme Vaz, que em algumas cenas aparece fazendo o serviço dentro do quadro. Tem muito cactus, muita pedra, muita caverna e muito rosto contemplando o vazio do extra-quadro. Um filme de Julio Bressane, parte do projeto Tela Brilhadora, que teve sua estreia carioca na Semana dos Realizadores.

Não me importo de fazer um comentário ignorante como esse. O próprio Julio, ao fim da sessão, depois de dizer-se inspirado em Borges e citar meia-dúzia de escritores, afirmou que GAROTO é “uma apresentação de Nada, um personagem Ninguém num tema que é Nada”. Quem sou eu para discordar dele?

Um comentário sobre “O que vi na Semana dos Realizadores

  1. Pingback: Lésbicas e pioneiras | ...rastros de carmattos

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