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Com um título tão ambicioso quanto muitas de suas imagens, BRASIL S.A. oferece uma leitura crítica do modelo de desenvolvimento adotado pelo país. E não cabe restringir essa crítica à situação de poucos meses atrás, já que a busca pela ordem e o progresso está na bandeira e na nossa história republicana, com ênfase especial nos períodos juscelinista e nos governos militares.

O que embaralha um pouco a pauta de Marcelo Pedroso é a conjugação desse discurso nacional de longo prazo (a substituição do rural pelo industrial, do homem pela máquina, etc) com o ativismo atual contra a privatização e a verticalização dos espaços urbanos, particularmente em Recife. No fim das contas, o filme atira para tantos lados que se torna difícil precisar sobre o que está falando. Estão na mira, entre tantos alvos, o orgulho e a vaidade de um “Brasil grande” que se perpetua no tempo como sintoma independente, a terceirização da vida por uma classe média indolente e consumista, o eclipsamento da realidade pelo nacionalismo e o entorpecimento das vontades através da religião. Resta saber o que o filme ainda tem a dizer sobre o país que, desde a conclusão das filmagens, vem caminhando em direção ao abismo.

Coesa ou não como manifesto, esta é uma peça cênica de grande impacto e suntuosidade, que abdica completamente do verbal e satiriza a grandiloquência da propaganda política e do audiovisual institucional. A trilha orquestral de Mateus Alves inunda o filme de ímpeto e ironia. Por fim, é curioso que Marcelo Pedroso tenha saído de três filmes de quase completa renúncia autoral (“Pacific”, “Aeroporto” e “Câmara Escura”) para um projeto de concepção tão controlada, milimétrica e coreográfica.



OS CAMPOS VOLTARÃO (Torneranno i Prati), do veterano Ermanno Olmi, é dedicado ao pai do diretor, que foi soldado, e fotografado pelo seu filho, Fabio Olmi. Trata-se de um pequeno canto melancólico sobre o esquecimento da guerra. A realização é de 2014 como lembrança do centenário da I Guerra Mundial. Um grupo de soldados italianos entrincheirados perto da fronteira austríaca, cercados pela neve e pelos bombardeios do inimigo, se confrontam com ordens suicidas vindas do quartel general.

Olmi pontua dramas individuais sinteticamente, com destaque para o medo da morte e a sensação de que todo aquele sacrifício será esquecido quando a neve sobre os mortos se derreter e os campos voltarem a florescer. A ação se passa em uma noite apenas, sob a vigilância soturna da lua, mas alude ao horror de toda uma guerra. As imagens são descoloridas até quase o preto e branco, realçando somente os tons do sangue e do fogo. O ritmo é lento, meditativo, como em outros filmes do mestre. Pelo tom da fotografia e pela ênfase no intimismo, o filme me fez lembrar “A Estrada 47” de Vicente Ferraz, sendo o humilde heroísmo dos brasileiros trocado pelo desalento dos italianos.