Viagem pelo experimental argentino

Se você está em São Paulo, esqueça por uns dias Darín, Campanella, Lucrecia e tudo o que compõe uma ideia dominante do cinema argentino atualmente. Mergulhe no cinema experimental de Claudio Caldini, Jorge Honik e Narcisa Hirsch, que estrelam a mostra Cine Sin Limites, iniciada ontem (quinta) no Centro Cultural São Paulo.

O trio começou a fazer filmes no final dos anos 1960 e se tornaram amigos e colaboradores mútuos. Influenciados por diversas correntes do experimental, com destaque para o cinema estruturalista de Michael Snow e Werner Nekes, eles passaram da película (Super 8, 8mm e 16mm) para o vídeo sem maiores abalos. Trabalham intensamente com a investigação do movimento, das durações e da relação entre imagens e sons. O conjunto das obras inclui filmes de viagem, reconfigurações audiovisuais de performances cênicas, experimentações em ateliê e vários outros motivos.

Por uma questão de preferência pessoal minha, e também porque as viagens determinaram em boa parte os rumos dos trabalhos desses artistas, vou me deter aqui sobre alguns de seus filmes que podem ser considerados “de viagem”.

Claudio Caldini, que viveu em Barcelona e na Bahia, realizou Film-Gaudí no Parque Guell. Os mosaicos coloridos de Gaudí são destacados em closes e, submetidos a incessantes movimentos de aproximação e recuo, ganham um efeito psicodélico. A arquitetura tortuosa do parque é transfigurada pelo isolamento de detalhes e a aplicação do movimento sobre as formas estáticas. O fato de não aparecer nenhuma figura humana, em lugar constantemente coalhado de turistas, também ajuda a enfatizar o incomum da paisagem gaudiana.

Em Heliografia, Caldini apresenta um passeio de bicicleta através da sombra do ciclista. A filmagem quadro a quadro, junto a efeitos videográficos, provoca a dissolução das linhas e a decomposição do movimento, com um resultado de grande beleza e lirismo. Os movimentos circulares, seja dentro do quadro ou com o próprio quadro, é um dos traços característicos dos filmes desse realizador.

O viajante Jorge Honik filmou em muitos países e experimentou bastante com a gramática do deslocamento. Índia-Nepal é um traveloz (acabo de criar essa palavra juntando “travelogue” e “veloz”) pelos dois países. A aceleração da duração dos planos e do ritmo da montagem troca a fruição turística por uma espécie de olhar devorador, um desejo de síntese manifestado através de imagens em fuga permanente.

Un Paseo é protagonizado pela mulher de Jorge, Laura Honik, presença frequente em filmes não só do marido, mas do trio. Laura está no meio de um trigal onde tudo pulsa: as ramas do trigo, os drops coloridos que invadem a imagem ou mesmo o quadro inteiro. A vibração é aqui a figura de linguagem predominante. Já em Passacaglia y Fuga, o recurso principal é o traveling, signo cinematográfico da viagem já a partir do nome. Ao som da música-título de Bach, a câmera desliza em movimento contínuo diante de móveis, objetos, lombadas e páginas de livros, quadros e souvenirs de viagem do casal Honik. O movimento estável e uniforme da câmera, no entanto, deixa transparecer um outro tempo mais acelerado no interior de algumas imagens. Essa discrepância intrigante pode remeter ao tempo da lembrança, que é lento e distanciado em relação à excitação da viagem recordada.

Narcisa Hirsch, nascida na Alemanha, agrega algumas influências possíveis de Maya Deren no interesse pela especulação em torno do feminino. Dos três, ela foi a que mais se dedicou à filmagem de performances e happenings. A palavra foi outro ingrediente de peso em seus filmes, mas, por razões de coerência no artigo, comento aqui dois curtas realizados no extremo sul da Argentina, ambos intitulados simplesmente Patagonia.

No primeiro, de 1976, uma banda sonora inspirada no sopro do vento acompanha imagens da Patagônia argentina. Fotografias de Claudio Caldini e a presença em cena de Laura Honik exemplificam a colaboração existente entre os três cineastas.

O segundo Patagonia, concluído um ano depois, é uma variação mais elaborada do primeiro. Ressalta o tema da estrada, já a partir do agenciamento da canção It’s a Long Way, na voz de Caetano Veloso. Narcisa utiliza uma série de procedimentos sobre a estrada e a paisagem, incluindo sobreposições, intermitências pulsantes e pontuação com telas pretas. Além da estrada, há também casas, rostos, animais e trabalhadores numa composição em camadas do cenário patagônico.

Essas observações sobre os filmes de viagem são apenas um exemplo das muitas invenções produzidas por Narcisa, Jorge e Claudio à margem do cinema industrial argentino. A programação abrange sete filmes de outros cineastas, de 1933 a 2014, que dialogam com o cinema do trio central.

Veja aqui a programação, sinopses e links para baixar os catálogos da mostra. A curadoria e produção são de Aaron Cutler e Mariana Shellard.

Abaixo, um teaser:

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