As meninas

Não são apenas DUAS IRENES, mas também duas casas, duas mães e dois modos de vida que estão em jogo no belo filme de Fabio Meira. Se hoje a descoberta por uma menina de 13 anos de que seu pai tem outra família e, mais que isso, outra filha com o mesmo nome e idade pode ser um tremendo choque, imagine isso nos anos 1960, numa cidade do interior de Minas.

Para a retraída “Irene de Mirinha”, o encontro dissimulado com a irmã vale como um espelho onde ela passa a se ver de modo mais nítido: a “magrela” tratada como menina, que nunca beijou e se sente desgostada pela mãe. A “Irene de Neuza”, por sua vez, tem corpo de moça e uma desenvoltura que a outra inveja. O curso dos acontecimentos, porém, vai mostrar que as diferenças não são assim tão grandes. E que os segredos dos adultos, tal como as inseguranças da adolescência, também têm hora para acabar.

Esse filme é uma pequena aula de como transformar um argumento miúdo num vasto campo de observação humana. Talvez haja um leve esquematismo na maneira de representar as duas famílias, assim como a vida da garotada no interior (especialmente no escurinho do cinema), mas isso entra na conta do toque de irrealismo com que tudo é encenado. Estamos sempre um passo adiante do naturalismo, como numa espécie de casa de bonecas. Para isso contribuem enormemente a fotografia em tons pastéis e os enquadramentos primorosos da boliviana Daniela Cajías. A exploração da profundidade de campo em diversos momentos insinua uma inspiração no quadro “As Meninas”, de Velázquez, citado rapidamente numa cena.

A impecável direção de elenco, a economia de diálogos que deixa espaço para a imaginação do espectador e a manutenção de uma atmosfera ao mesmo tempo lírica e grave são outras virtudes de mais um bem-sucedido filme de adolescentes na safra brasileira de 2017.

4 comentários sobre “As meninas

  1. Bom texto, Carlos. Reproduzo o que eu tinha escrito para o Fabio Meira: “Eu que adorei ver o seu filme, tão bem escrito, atuado e dirigido. Cinema pra valer, onde o discurso das imagens é rigoroso e poderoso em sua delicadeza. Um filme que fala mais do universo patriarcal do que mil discursos ideológicos feministas e descreve uma opressão que se constrói nas mínimas coisas. Teu filme é fruto, entre outras coisas de uma observação minuciosa transmudada poeticamente em cinema, livre de qualquer pieguismo ou apelação. Tem excelentes soluções de mise-en-scéne e enquadramentos, mas não chama atenção para si e sim fortalece os personagens e a narrativa. Foi um grande prazer assistir o teu filme. Abraço e sucesso!”

  2. Verdade, esse passo adiante de irrealismo vira poesia e constrói um espaço de tensão dramática mesclada com naivité. Interessante, subjetivo. Também gostei da poética do filme. Me lembrou a belíssima obra da Marina Person, “Califórnia”.

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