Deserto filosófico

O cinema brasileiro foi pródigo em alegorias sobre a situação política nos anos 1970. DESERTO, estreia na direção do ator Guilherme Weber, ecoa essa tradição, mas sem a urgência da época. O alvo não é mais o Brasil, mas a condição humana e a injustiça social como dados universais.

Baseado no livro Santa Maria do Circo, do mexicano David Toscana, o filme narra o périplo de uma trupe de circo sem lona por cidadezinhas sem público do interior brasileiro. Cansados e desiludidos, eles resolvem se estabelecer num vilarejo abandonado e fundar ali a “sua” cidade. Novos papéis são sorteados para cada um. O Hércules, por exemplo, tira o papel de puta, enquanto o anão ganha o de padre e o domador passa a ser o “negro”, escravizado nos piores afazeres.

A coisa ganha um sentido filosófico ao tocar em temas como a aceitação do destino e a possibilidade de se reinventar; a potência ou a inutilidade da arte; ou o fato de que, na vida, tudo o que fazemos é “nos esforçarmos para apodrecer de pé”. Até nós, na plateia do cinema, somos implicados em nosso suposto sadismo diante do espetáculo da decadência dos artistas. O grotesco e a crueldade se realizam através de imagens virulentas, como a da médica que cura feridas com a língua ou os diferentes assassinatos em que culminam alguns conflitos.

Duas forças põem o filme em movimento. Uma é o texto, que mal disfarça em diálogos sua característica de monólogos sentenciosos. Durante o pouco tempo de tela de que desfruta, Lima Duarte esbanja frases lapidares em interpretação tipicamente exuberante. A outra força em ação são as imagens do fotógrafo português Rui Poças (Aquele Querido Mês de Agosto, Tabu, O Ornitólogo), sempre muito recortadas contra um céu gigantesco ou o chão árido, ou ainda em requintes de claro-escuro e silhuetas. A conjugação da fotografia com a direção de arte de Renata Pinheiro, a cenografia de Karen Araújo e as locações no sertão paraibano tornam DESERTO, mais que qualquer outra coisa, uma obra plástica de grande impacto.

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