Crônica camponesa impressionista

Paulistas, Goiás soa parecido com Paris, Texas. Não é sem propósito. A imigração de gente de São Paulo para a região goiana de Catalão, puxada pela monocultura da soja e por grandes empreendimentos hidrelétricos, mudou a face do lugar. Os jovens se deslocaram para a área urbana, enquanto os mais velhos ficavam no ambiente rural. O documentário PAULISTAS quer descrever, de maneira impressionista, o resultado dessa mudança no cenário do campo.

Daniel Nolasco pautou-se por uma formidável restrição. Escolheu uma mesma família – Nolasco, a sua – e meia dúzia de personagens para resumir todo um quadro de contraste e interação entre o velho e o novo. Filmou em julho, quando os filhos costumam passar um tempo na casa dos pais. Os irmãos Samuel, Rafael e Vinícius Nolasco ajudam no trabalho do campo e ao mesmo tempo mantêm o padrão de vida mais moderno da cidade.

Assim é que o filme alterna trabalhos rudimentares no campo com rally de motocicletas; telefonemas em velhos aparelhos com fio e namoro por mensagens de texto; ordenha manual de vacas e lanchas possantes singrando o rio; casas arruinadas e carros de modelo recente; silêncios profundos e a farra do forró. Mergulhamos num mundo sertanejo goiano modesto, bem distinto do ostentatório paulista.

Tudo isso seria apenas mais uma crônica camponesa como tantas não fosse o diferencial de estilo empregado pelo realizador. Daniel constrói sem pressa um mosaico de flagrantes observacionais, entrecortando a continuidade e gerando uma constante expectativa. Os planos fixos, os enquadramentos expressivos e a fotografia esmerada revelam um rigor formal que transcende a mera descrição realista. A topografia goiana é explorada em belíssimos long shots e a luz do cerrado ganha um protagonismo acentuado. Toda prolixidade é abolida em troca do poder de sugestão das imagens e das paisagens sonoras.

PAULISTAS está sendo exibido juntamente com o curta de animação QUANDO OS DIAS ERAM ETERNOS, de Marcus Vinicius Vasconcelos. Há uma tênue ligação temática com o longa, uma vez que trata da volta de um filho à casa materna para cuidar da mãe doente. Trata-se de uma pequena obra-prima, premiada em vários festivais nacionais e internacionais. A técnica do desenho em linhas é levada à exacerbação, com grande efeito de pregnância emocional. Parte do trabalho se baseia num espetáculo e em referências do bailarino de butô Kazuo Ohno.

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