Pequenas vidas, grandes jogadas

Sobre MINHA AMIGA DO PARQUE, A GRANDE JOGADA e PEQUENA GRANDE VIDA

Quando Liz, a personagem central de MINHA AMIGA DO PARQUE, aparece chorando sob o chuveiro, logo no início do filme, a gente se pergunta por quê. À medida em que (des)conhecemos mais essa mãe recente, às voltas com seu bebê e com as companheiras de parquinho, os “por quês?” não param de se avolumar. Sabemos que ela se sente uma péssima mãe por não ter leite nos seios, que está sozinha com o marido distante, que tem uma carência profunda, mas… Nada disso justifica seu comportamento errático e sua passividade diante do perigo mais que anunciado.

O perigo vem sob a forma de Rosa (interpretada pela diretora e roteirista Ana Katz), uma operária que frequenta o mesmo parque com um bebê e tem uma irmã meio misteriosa. Pedidos despropositados, insistências suspeitas, apropriação de dinheiro alheio, reputação queimada e um revólver na bolsa não são suficientes para demover Liz (Julieta Zylberberg) de seu estranho interesse pela dupla.

Se há um possível componente de atração pelo risco e talvez uma aposta na honestidade em último caso, isso resulta mal desenvolvido na construção da personagem. Apesar do bom rendimento naturalista da atriz, Liz é opaca até o fim em sua deriva emocional. Da mesma forma, Rosa e Renata têm seus perfis reduzidos à mera aparência, sem estofo humano perceptível.

Como filme sobre dilemas da maternidade e convivência entre mães de parquinho, MINHA AMIGA DO PARQUE é uma crônica ligeira e apenas eventualmente simpática.



A alta reputação do roteiro de A GRANDE JOGADA, indicado ao Oscar de adaptações, é um desses mistérios que Hollywood jamais me fará compreender. O que eu vi na tela não foi uma transposição para a linguagem audiovisual, mas praticamente uma leitura em off do livro de Molly Bloom interrompida por diálogos e ilustrada por imagens redundantes e tão velozes quanto o ritmo da fala.

No papel da esquiadora que, depois de um grave acidente, troca o esporte pelo ofício de operadora de pôquer nas altas rodas nova-iorquinas e acaba investigada pelo FBI por supostamente cobrar comissões ilegais e associar-se à máfia russa, Jessica Chastain não deixa a peteca cair, seja oral, seja visualmente. A montagem de planos curtos dá a impressão de agilidade, mas não há quase nada que as imagens mostrem para além do que está sendo narrado em retrospecto por Molly. Considerando que 90% dos monólogos e diálogos dizem respeito a business, pôquer e processo judicial, a experiência de assitir aos 140 minutos do filme torna-se tarefa restrita aos muito interessados.

O roteirista e dramaturgo Aaron Sorkin (responsável pela escrita de “Questão de Honra”, “A Rede Social” e “Steve Jobs”) estreia na direção com um filme tipicamente seu: verborrágico, tematicamente autista e ancorado em protagonistas fortes. Molly Bloom, porém, o fez exagerar nas duas primeiras características. No relato autobiográfico incessante, faltou construir a personagem para além do seu ofício. Kevin Costner como um pai devotado, mas com culpas no cartório, é apenas um blefe psicológico sem cartas boas para apresentar.



O herói (?) de PEQUENA GRANDE VIDA passa por vários deslocamentos radicais durante o filme. No primeiro, resolve embarcar no admirável mundo novo da miniaturização. No segundo, já vivendo na bolha pseudo-utópica, ele entra num ônibus, atravessa um túnel e descobre o lado menos idealizado de Lazerlândia. Mais adiante, ei-lo cruzando os ares para a Noruega, onde viverá um breve interlúdio Lilliput-Hippie. E lá vem mais um túnel para levá-lo a outro estágio de civilização.

Em cada uma dessas passagens, o filme de Alexander Payne vai ficando mais e mais incongruente e tipificado. A promessa de engajar a ficção científica numa sátira interessante das aspirações da classe média (ser reduzido a três milésimos do seu tamanho o transforma em milionário, o afasta da criminalidade e ainda ajuda o planeta) se converte rapidamente numa fábula humanitária sentimentalista e às vezes até constrangedora. O potencial de crítica social se dilui, dando lugar a uma parábola moral canhestra sobre amor e solidariedade.

O personagem de Matt Damon é o estereótipo central em torno do qual giram outros estereótipos como o contrabandista bonachão, a refugiada de perna ruim e coração bom, o cientista meio maluco que lidera uma seita apocalíptica. Falta carisma tanto aos personagens quanto à direção de Payne, que trabalha aqui com a produção de maior envergadura de sua carreira. O processo de encolhimento industrial e a apresentação da cidade dos “Pequenos” fazem os momentos mais sugestivos de um filme que, afora isso, desperdiça as possibilidades do argumento e se arrasta na insipidez das boas intenções.

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