Carta aberta a Monique Gardenberg

Minha amada irmã,

Não sei se vou conseguir desmontar o crítico de cinema que mora nas pontas dos meus dedos para comentar com menos formalidade o teu último filme. Por isso começo logo dizendo que estou muito orgulhoso por PARAÍSO PERDIDO.

“Pessoal…”, como diria o Teylor lindamente interpretado por Seu Jorge.

Lembro de quando me enviaste o primeiro tratamento do roteiro e das observações que te mandei de volta – nem todas positivas (risos). Vendo o filme pronto, tenho mais uma prova de que um roteiro não passa de um esqueleto burocrático onde o cinema ainda não entrou para dar carne, sangue e vida àquele corpo inerte.

Não vejo PARAÍSO PERDIDO apenas como mais um filme teu que lida com muitos personagens e histórias entrelaçadas. Para mim, é um projeto pessoal que trata de perdas e reencontros como os que vivemos. Nós dois, irmãos de mães diferentes, sabemos bem o que significa juntar os cacos familiares e seguir em frente.

Mas não levemos as coisas tão a sério assim. Compreendo bem a tua decisão de abrir o filme com o Erasmo saindo do fundo do palco, entrando na luz e pedindo que a gente “esqueça a vida lá fora” e “seja feliz aqui, num lugar para aqueles que sabem amar”. É bem um convite para que abandonemos exigências naturalistas e nos entreguemos às liberdades do folhetim, onde valem as coincidências rocambolescas e os labirintos de afeto nos quais podemos nos perder.

Gosto imenso do que sugerem alguns nomes da tua fauna paradisíaca. O encontro de Odair e José tilinta como uma das tantas homenagens que fazes ao nosso cancioneiro romântico dito brega. A acepção que criaste para a expressão “anjo da guarda” é um achado e tanto, muito embora esse anjo chegue sempre atrasado em suas intervenções cruciais. Eva é essa pecadora expulsa do paraíso por longos 20 anos. Celeste cai bem àquela musa dos sorrisos celestiais. Ímã (que nome andrógino mais bacana, minha irmã!) tem tudo a ver com o magnetismo que Jaloo desprende em todas as suas cenas – e tu ainda hás de me contar como descobriste esse tesouro paraense para o cinema, tua nova Cléo Pires.

Adoro os diálogos inspirados que saem redondos da boca dos atores, a mélange de falas e letras de música, a montagem a criar paralelismos deslumbrantes e fazer o cinema aparecer no seu melhor, as luzes do Pedro Farkas a colorir de brilhos ou descolorir quando necessário esse carrossel de olhares famintos e abraços sedentos. Não é por seres minha irmã, mas acho que fizeste um dos filmes mais carismáticos do cinema brasileiro recente.

E o que dizer da direção musical tua e do Zeca Baleiro? É a entrada triunfal da música no teu cinema, impulsionando a narrativa, costurando sentidos e comentando com graça as diversas situações. Música que vai além da audição e ressoa em outros sentidos, outras linguagens. Como resistir a tua versão de “You’re so Vain”, que virou “Você não Vem”? Ou às três gerações da família cantando juntas naquele terraço até que a voz soberana de Roberto Carlos entre como por magia e desvie a câmera para o espaço celeste?

Bem, mana, avise aí se eu estiver me derramando muito. Vou tentar ser um pouco mais técnico.

Recebo PARAÍSO PERDIDO como um filme noir com toques almodovarianos e espírito de Reginaldo Rossi. Do lado de fora do paraíso reinam os pecados literalmente mortais. Violência doméstica, crime de vingança, sequelas traumáticas e ataques homofóbicos rivalizam com as ternuras e os tesões dos personagens. São tantos amores difíceis, separados por traição, prisão, preconceito. “Quem tudo quer do amor nada terá”, como avisou Anísio Silva. Mas, ao mesmo tempo, amar parece tão fácil como há muito eu não via num filme. Ama-se de várias maneiras – e todas soam bonitas, honestas e libertárias. “Essa grande montanha de amor”, como cantou Augusto César.

Nini, como já conversamos, tua trama exige bastante do público que quiser montar o quebra-cabeça das duas famílias em vez de simplesmente se deixar levar pelo charme de tudo. Eu mesmo tive que desenhar uma árvore genealógica depois de ver o filme, a fim de compreender aquelas relações, pois já não me lembrava mais do distante roteiro. Ainda assim, confesso que não assimilei completamente algumas das tuas decisões dramatúrgicas mais arriscadas (o encontro na blitz, o abandono de Celeste pela mãe, a saída final de Nádia e mesmo a dupla conexão entre as duas famílias). Quanto a isso, entendi bem o recado literal deixado no próprio filme, em uma de suas várias referências metalinguísticas: “Quando um artista tem que explicar sua arte para o público é porque um dos dois é burro”. Nesse caso, creio que o burro sou eu.

Para usar um clichê de crítico, vale dizer que eventuais dúvidas quanto ao roteiro  não reduzem o encantamento do teu trabalho, a excelência da tua direção nesse que, para mim, é teu melhor filme. É tão bom que eu amaria vê-lo estendido em outros suportes. Penso numa exposição das tantas e tontas perucas usadas pelos atores (risos). Ou num show com o elenco cantando do jeito airoso que vemos no filme. Erasmo, Julio Andrade, Jaloo, Seu Jorge, Julia Konrad e quem sabe Zeca Baleiro reunidos num palco ao vivo seria o máximo.

Mas esse papo já vai ficando longo e deves estar às voltas com a estreia do filme. A gente continua na próxima vez que se encontrar. Dê os parabéns ao Lourenço pela trilha incidental e um abraço no Raymond. Não te canses demais com os compromissos do lançamento. Cuida bem da saúde e te protege do inverno que se avizinha.

Um beijo do mano Carloti.

16 comentários sobre “Carta aberta a Monique Gardenberg

  1. Olá Carlinhos, concordamos muito em relação ao emocionante Paraíso Perdido, filme atravessado por vários tipos de amores fraternos, com um visual incrível e atuações impecáveis. Vc deve, de um jeito ou de outro, ter sido um dos inspiradores. Parabéns pela sua crítica e para Monique pela realização.

  2. querido Xará, vi o filme agora, fiquei encantado, comovido e excitado. Fazia muuuuito tempo que não via um filme que respirava tanto amor e tanto carinho pelos seres humanos tão maltratados nos tempos que vivemos! Transmita minha admiração e abraço à diretora!!

  3. que vontade louca de ver o filme!Tem apelos para enfeitiçar o exibidor que nunca se lembra do bom Cinema Brasileiro. Erasmo Carlos, Odair José… espero ver um dia, pois aqui no sertão Roseano de Montes Claros, talvez não chegue não! Parabéns para a familia! Sucesso é o que eu posso desejar. Ah me mande o trailer continuo divulgando o bom Cinema Brasileiro daqui mesmo. Bj Carlinhos :

  4. Saí do cinema tão emocionada! Minha vontade era voltar e assistir tudo novamente. Amei o filme. É de uma sensibilidade! Aquela boate é realmente um oasis, uma shangri-la, a pasárgada que todos buscamos.
    O elenco incrível com destaque para o Jaloo. Quê isso? Demais.
    Amei sua crítica. Vc é perfeito.

  5. Que texto maravilhoso, quanto sentimento. Sai ontem do cinema tomada pelo filme, Como seria bom vê-lo bem distribuído em salas de cinema da zona Norte ( RJ) na zona Leste, pelo Nordeste adentro, em todos os lugares onde as salas de cinema não existem mas o público iria adorar. Que filmaço ! Para béns por sua carta para esta diretora tão talentosa e craque demais ! Ela é mesmo ” do ramo”, como dizia meu pai.

  6. Gostei do que você escreveu e do filme que me trouxe uma ternura num momento difícil da vida que vivemos aqui no Brasil
    Beijo

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