Mataram minha mãe

ELEGIA DE UM CRIME e IMAGINÁRIO – Festival de Brasília

ELEGIA DE UM CRIME é o terceiro filme de Cristiano Burlan numa trilogia sobre mortes trágicas em sua família. Depois de Construção (sobre as estranhas circunstâncias da perda do seu pai) e de Mataram meu Irmão (leia uma pequena nota minha sobre o filme), ele se volta para o assassinato de sua mãe por um companheiro em 2011.

Duas investigações correm em paralelo. Numa, Cristiano conversa com seus três irmãos remanescentes e outros parentes, em busca de ecos da tragédia. Quer saber como cada um se lembra de sua mãe e perceber o impacto da perda. Cristiano fala através dos irmãos, sobretudo da inteligência sensível de Kelly, a mais nova. Ele próprio se mantém quase sempre em posição de escuta.

Num dos raros momentos de extravasamento, Cristiano revela um dado crucial sobre sua origem, o que nos faz repensar boa parte do que ouvíamos até ali. A imagem da mãe Isabel, evocada em fotos e na lembrança dos familiares, como que ressurge da ameaça do esquecimento para condensar uma vida de sofrimento, carência maternal e beleza maltratada.

Na segunda investigação, auxiliado por uma repórter criminal que noticiou o crime sete anos atrás, Cristiano tenta engajar a polícia na procura do assassino, ainda solto. A partir de certo ponto, lança-se ele mesmo na busca, em vertente de filme policial verité.

Já no filme anterior, havíamos conhecido aquela família atribulada pelo envolvimento com o crime, as prisões e uma dor inconsolável. ELEGIA DE UM CRIME avança um pouco mais nessa exposição. Nos muito silêncios e nas poucas e fortes palavras do diretor, irrompe a emoção de um homem que usa o cinema para curar-se. No caminho, emociona também a nós.

Arquivos provocativos

Burlan apresentou na noite de abertura do festival o curta IMAGINÁRIO, experimento na junção de faixas de áudio e vídeo de procedências e sentidos diferentes. Nas imagens, cenas de campo, fábricas e desfiles militares recolhidas na Cinemateca Suíça. No som, comunicados, pronunciamentos e discursos históricos brasileiros, da morte de Vargas ao AI-5. A intenção é mais provocativa que qualquer outra coisa, uma vez que as duas faixas não dialogam nem por convergência, nem por choque. É pelo estranhamento que o diretor pretende reforçar a sensação de incômodo enquanto ouvimos falas que bem poderiam estar se referindo ao momento atual do Brasil: golpes, espanto, incertezas. O imaginário convulsivo da nação.

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