O cursor como personagem|

BUSCANDO…

Filmes passados inteiramente em telas de computador não são exatamente uma novidade. O curta canadense Noah (2013), o longa americano Amizade Desfeita (2015) e o documentário brasileiro Xará (2017) já haviam usado esse dispositivo radical. Nesse último, o diretor baiano Matheus Vianna buscava contato com seus vários xarás através do Facebook, espaço único onde transcorria todo o filme.

BUSCANDO…, drama agora em cartaz, é o exemplar mais interessante surgido até agora. Como de praxe, nada vemos além de telas e abas de computador em frenética atividade enquanto um pai procura pela filha desaparecida. Para ficar mais envolvente e menos referencial, o filme usa alguns artifícios, como providenciais transmissões captadas em sites jornalísticos e uma webcam que fornece o contracampo do pai diante da tela dos computadores.

O efeito é poderoso e dá conta de uma trama engenhosa, cheia de pistas falsas e surpresas ao longo da investigação. Na esfera humana, o que está em foco é a opacidade da vida virtual. Mais do que nunca, os pais estão fadados a conhecer pouco da vida íntima dos filhos. Já no campo das fórmulas cinematográficas, temos a figura do pai-herói que assume para si o papel de detetive.

A dinâmica gráfica requer do espectador certa familiaridade com os recursos mais comuns da internet e capacidade de absorver tantas janelas, abas e textos disputando a tela em alta velocidade. A mim chamou atenção o papel dramático do cursor, que funciona como um índice de subjetividade do pai, com suas ansiedades, hesitações, mudanças de ideia, etc. Na verdade, o cursor é o “personagem” central do filme.

Essa coprodução dos EUA com a Rússia é um autêntico rebento da globalização. Os protagonistas são de origem do sudeste asiático, o coprodutor é Timur Bekmambetov, do Cazaquistão, e o diretor Aneesh Chaganty é americano de ascendência indiana, um dos gênios apadrinhados pelo Google. BUSCANDO… pode então ser visto também como um elogio do alcance das redes, um simulacro que cada vez mais se confunde com a própria vida.

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