Da clausura ao palco

Sobre a peça CORPOS OPACOS

Vocês já ouviram falar das “monjas coronadas” colombianas? Na Bogotá do século XVIII, freiras que levaram a vida enclausuradas tinham seus corpos retratados por pintores depois de mortas. Vestidas em finas roupas de noiva e ornadas com guirlandas de flores, elas estavam prontas para consumar seu casamento com Jesus.

Os quadros das “monjas coronadas”, tesouro do barroco colombiano, inspiraram as atrizes Carolina Virgüez e Sara Antunes a idealizarem a peça CORPOS OPACOS, em cartaz até 4 de novembro no Sesc Copacabana.

Carolina é colombiana, Sara é filha de uma ex-freira. As duas como que arrancam das entranhas, a cada noite, essa experiência de trazer as freiras clarissas da sua condição de naturezas mortas para um discurso atualíssimo sobre a condição da mulher, os silêncios a superar, a sexualidade a desreprimir, o feminismo a fazer-se ouvir.

Não há nada de panfletário. Em sucintos 50 minutos, Carolina e Sara evoluem do teatro-documentário para uma arrojada performance coreográfica, em que atrizes e personagens se dissolvem umas nas outras. A direção de Yara de Novaes exige bastante fisicamente das moças, enquanto o desenho cênico e sonoro, simples mas eficaz, atinge em cheio a nossa sensibilidade.

Quase três séculos depois, as misteriosas pinturas das monjas coronadas podem nos tocar como se fossem de carne viva.

(Foto do topo: Julieta Zeta)

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