Tocando as teclas da verdade

É Tudo Verdade: SINFONIA DE UM HOMEM COMUM

Seja ao piano, seja na diplomacia, José Maurício Bustani parece demonstrar a mesma combinação de serenidade e firmeza. Ou pelo menos é o que sugere Sinfonia de um Homem Comum. José Joffily o retratou oscilando entre esses dois mundos, como numa combinação feliz dos documentários Nelson Freire e Sergio (sobre Sérgio Vieira de Mello).

Do pianista (irmão da também pianista Linda Bustani) vemos alguns poucos e belos flashes de performances, além da cena inicial, que o mostra exigindo a troca de um piano em mau estado antes de uma apresentação. José não aceita trabalhar se não for para fazer o melhor. Foi por essa virtude que ele chegou ao cargo de primeiro diretor da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), sediada em Haia. Pela mesma virtude, foi destituído do cargo cinco anos depois, quando se recusou a submeter-se às tramoias dos EUA para invadir o Iraque.

A história é razoavelmente conhecida, mas o filme a relembra oportunamente e traz detalhes ainda reveladores. Bustani recorre a seu acervo pessoal de fotos e recortes de jornal, enquanto Joffily vai a Haia e Londres – além de fazer entrevistas virtuais – em busca de testemunhos que ajudem a clarear o contexto. Era o ano de 2002 e os EUA procuravam um pretexto para derrubar Saddam Hussein. Bustani, porém, atrapalhava seus planos. Tentava convencer o Iraque a aderir à OPAQ e admitir a inspeção de armas químicas no país. Eliminaria, assim, o motivo por que George Bush impunha sanções e decretaria a invasão do Iraque um ano depois.

Começavam as sabotagens para retirar Bustani do cargo. Escuta clandestina foi instalada em sua sala. Ameaças a sua família foram feitas diretamente pelos próceres da extrema-direita estadunidense no poder. Por fim, uma assembleia de estados-membros decretaria sua expulsão da OPAQ com votos comprados pelos EUA e Inglaterra. “Um golpe de estado químico”, foi como o jornal britânico The Guardian classificou o episódio.

Num trabalho eficaz de investigação, Joffily obtém a confissão do então porta-voz do Departamento de Estado de que faltou com a verdade na ocasião, uma vez que o governo já sabia que mentia quanto à posse de armas químicas utilizáveis pelo Iraque. Ouve um emissário da OPAQ vindo clandestinamente ao Brasil para recolher uma assinatura de Bustani. De Fernando Henrique Cardoso recolhe uma admissão de fraqueza do governo brasileiro em defender Bustani diante de pressões dos EUA. A esse respeito, Bustani chega a desmentir Celso Lafer, chanceler à época.

Reabilitado no governo Lula como embaixador em Londres e Paris até a aposentadoria compulsória, o diplomata-pianista via o padrão se repetir mais recentemente. Sob Trump, os EUA mais uma vez usava as fake news das armas químicas para investir contra a Síria. Os relatórios da OPAQ foram manipulados, desprezando provas de inexistência das tais armas. A ONU convocou Bustani para um debate sobre o assunto, mas sua presença foi banida por iniciativa do representante britânico. Dessa vez, ele não perturbaria os planos das potências.

Enquanto isso, mostra Joffily, os mesmos falcões da era Bush se reaproximavam do Brasil via Bolsonaro. Restavam a José Bustani o consolo de Chopin e a boa consciência do dever cumprido. Esse belo filme faz jus a suas melhores performances.

Exibições:
02/04 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Augusta (SP)
02/04 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Botafogo (RJ)
02/04 – 21h: É Tudo Verdade Play – Limite de 1800 Visionamentos
03/04 – 13h: É Tudo Verdade Play – Limite de 200 Visionamentos
03/04 – 15h: Debate com equipe do filme no canal do É Tudo Verdade no Youtube

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