POBRES CRIATURAS
Para muitos será uma heresia aproximar Pobres Criaturas (Poor Things) de Barbie. Mas eu me arrisco. Lá está uma criatura a princípio destituída de cérebro e experiência do mundo, que aos poucos evolui para uma mulher empoderada e com tinturas feministas. Bella Baxter (dois “bs” como em Barbie) move-se primeiro como uma boneca desengonçada. Sua idade mental destoa pateticamente do seu corpo. Afinal, ela tem o cérebro de um bebê, implantado por um cirurgião excêntrico que a recolheu após uma tentativa de suicídio.
Estamos diante de um pastiche de histórias fantásticas clássicas, que incluem Frankenstein, A Bela e a Fera e tantas outras que mobilizam a figura do cientista louco. O mote principal é a possibilidade de se aperfeiçoar o ser humano mediante o aprendizado nos livros e o confronto com a realidade mais áspera. À medida que evolui mental e fisicamente, Bella assume uma franqueza radical e passa a se opor à tal “sociedade polida” que escamoteia as verdades da vida e deixa as desigualdades prosperarem. Bella quer melhorar o mundo, e para isso é preciso botar os machos em seus devidos lugares, ainda que seja como animais. Afinal, o sexo e a prostituição, para ela, são veículos de libertação.
Tudo isso me pareceu um bocado tolo e déja-vu, apesar da embalagem de alto luxo visual e da pompa literária de outrora com que são enunciados os diálogos. Pobres Criaturas quer ser uma fábula delirante para adultos. Assim, acumula bizarrices desde os créditos quase ilegíveis. São animais híbridos, cadáveres dissecados, uma cafetina vampira, um cirurgião eunuco, e por aí afora. A fotografia também busca a extravagância por meios óbvios, como grandes angulares distorcidas e lente olho de peixe.
Yorgos Lanthimos encontrou uma história e recursos de produção favoráveis ao seu pendor para a esquisitice. (Vale lembrar que Alpes, sua labiríntica fantasia mórbida de 2011, está na plataforma gratuita Sesc Digital até 1º de abril). Emma Stone surpreende com uma performance histriônica e fisicamente desinibida. Mark Ruffalo lida bem com um personagem sempre caricato. Willem Dafoe, por sua vez, deformado pelos remendos da maquiagem, ganhou traços de Michel Temer.
Pobres Criaturas está concorrendo a 11 Oscars, incluindo filme, direção, roteiro e atriz. É saudável que Hollywood tenha se interessado nessa medida por filme tão “fora da caixinha”. Ainda assim, acho que esse coquetel estapafúrdio não justifica tanto entusiasmo. No fim das contas, ao menos no Oscar, Bella acabou levando a melhor sobre Barbie, que recebeu oito indicações.
>> Pobres Criaturas está nos cinemas.





E não achei a Emma essa brastemp toda…
Aliás, prefiro o Spalanzani, o Coppelius e certamente a Olympia, que canta muito bem. É só dar corda. A Emma, pelo menos, deveria ter observado o gestual de várias Olympias…
Achei chatérrimo. É bom para insônia. Dormi no meio…
Não merece prêmio de nada.
Para mim, filme genial é Ervas secas, que nem sei se está concorrendo a alguma coisa.
Gostei de vários filmes do Oscar, principalmente dos filmes estrangeiros! Valem a pena de fato.
Esses Poor Things e Barbie são bem ruinzinhos…
ERVAS SECAS é maravilhoso, mas não foi indicado. Publico sobre ele amanhã.
Vimos hoje o filme. Minha conclusão: muito barulho por quase nada.
Bem-vinda ao clube.
Adorei: ” Willem Dafoe, por sua vez, deformado pelos remendos da maquiagem, ganhou traços de Michel Temer.”
Hahaha, não é verdade?
Mais uma crítica precisa e, invariavelmente, bem escrita! Você é MESTRE!!
Bondade sua, querido Guto.