Primas e queimaduras de primeiro grau

CRIADAS

Na abertura de Criadas, o célebre quadro A Redenção de Cam é consumido pelas chamas e reconstruído por montagem revertida. A tela do espanhol Modesto Brocos, de 1895, condensa, através de três gerações de uma família, o ideal de branqueamento da sociedade brasileira naquela época por meio da miscigenação. Não contente com essas imagens simbólicas, Carol Rodrigues ainda faz o quadro ganhar vida a certa altura do filme.

Há mesmo um excesso de simbolismo nessa história da relação de duas primas criadas juntas, mas em estamentos sociais diferentes. Sandra (Mawusi Tulani) é filha da empregada da família de sua prima Mariana (Ana Flavia Cavalcanti). Elas se reencontram quando Sandra volta à casa dos antigos patrões à procura de alguma fotografia da mãe. Mariana a presenteia com um quadro de mulher-árvore, símbolo de força feminina e do enraizamento na ancestralidade.

Temos aí uma questão de colorismo. Sandra tem pele negra escura e é associada ao estamento servil, enquanto Mariana, filha de mãe branca, tem pele mais clara e desfruta de privilégios de classe. A partir dessa diferença de cor, Criadas desdobra um fio de tensões familiares e sociais que procuram revelar o racismo latente não só entre etnias diferentes, mas também dentro de um mesmo grupo étnico.

A busca do sucesso profissional, numa onda bem paulistana, determina os níveis de realização da engenheira Sandra e da chef de cozinha Mariana. O contraste entre elas é trabalhado para tornar mais complexa essa equação.

As intenções são tão boas quanto a fotografia de Julia Zakia. Mas o desenvolvimento das ideias é confuso e sombrio. O sobrenatural, muito usado ultimamente para tratar de ancestralidade, ronda a casa e afeta até fisicamente os ambientes. A imagem perdida da mãe-empregada e os ecos da infância das duas primas invadem a realidade numa tentativa sinuosa demais de situar a relação de amor e ressentimento entre elas.

Criadas é um filme bem cuidado esteticamente e interpretado com razoável habilidade pelo elenco. Peca, porém, pelo acúmulo de metáforas e sortilégios, pelos diálogos apenas funcionais e por um tratamento bastante tortuoso de seu tema.

>> Criadas está nos cinemas.

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