E.T. para supostos adultos

DIA D

Spielberg volta à temática dos extraterrestres por uma via pretensamente mais, digamos, adulta em Dia D (Disclosure Day). Em lugar do encantamento do encontro, como em E.T. e Contatos Imediatos do 3º Grau, temos aqui uma interação remota, mediada por seres humanos dotados de capacidades especiais. No pano de fundo, uma sombra de thriller político: os EUA estão à beira de uma guerra com o próximo inimigo, a Coreia do Norte. Um funcionário de ONG comprometida com o governo (Josh O’Connor) descobre um segredo guardado desde a época de Nixon a respeito captura de extraterrestres (!) e, em torno dele, se arma uma corrida a favor e contra a revelação pública.

O achado do rapaz, uma espécie de Edward Snowden, não deixa de ter relação com o abuso de imigrantes pelos governos conservadores dos EUA. Mas, como sói acontecer nas fábulas spielberguianas, a conciliação de contrários vai prevalecer sobre todas as denúncias e desavenças. Até aí, porém, há um longo caminho a percorrer. Um caminho que, a meu ver, é um dos mais tolos já trilhados pelo diretor.

Dia D mistura filme de ação (espetacular, sem dúvida), ficção hipertecnológica, fantasia de super-poderes e vidências espíritas. Uma “garota do tempo” da TV tem faculdades sensitivas extraordinárias que lhe permitem assumir o lugar de qualquer outra pessoa numa versão extrema do que seria a empatia.

As duas autoridades opostas (Colin Firth e Colman Domingo) podem se deslocar para além do mundo material. A inserção de uma ex-noviça (Eve Hewson) abre espaço para que a fé em Deus também entre na conversa.

A baboseira se estende por 145 minutos de correrias, comandos de operação, teletransportes, ações virtuais e tête-à-tête entre pessoas e animais. A teia é tão estrambótica que embota a compreensão.

Não há dúvida quanto à proverbial competência de Spielberg na condução técnica das cenas e na criação de um senso de espaço. Mas, ao final de tanta discussão estéril sobre o direito à informação e a nossa eventual solidão no universo, só me restou uma grande decepção.

>> Dia D está nos cinemas.

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