8 DÉCADAS DE AMOR
O filme começa com um poema de Antonio Machado, a quem se deve o conceito de “duas Espanhas”, relativo à profunda polarização que divide os espanhóis historicamente entre ideologias conservadora e progressista. Em 8 Décadas de Amor (8), o basco Julio Medem romanceia essa ideia através de uma longa história que une um homem e uma mulher do berço ao túmulo entre 1931 e 2021.
Julio Medem é um cineasta afeito aos melodramas descabelados, apesar de mantidos numa armadura clássica. Com frequência, dispõe personagens em campos díspares mas unidos pelo destino (como em Vacas, Os Amantes do Círculo Polar e Um Quarto em Roma). Neste novo filme, as divergências políticas, separatistas e até futebolísticas do país vão semear o caminho de Octavio (Javier Rey), filho de um militante franquista, e Adele (Ana Rujas), filha de um guerrilheiro republicano. Nascidos no mesmo dia, terão suas respectivas famílias e seus encontros marcados por fatalidades e coincidências, bem ao gosto de novelões antiquados.
Se retirássemos as cores, as falas e os falsos planos-sequência que dão fluência à ação, teríamos um dramalhão da época do cinema mudo, quando as plateias só queriam mesmo ver as coisas acontecerem, sem um olhar mais crítico para o óbvio e o improvável. O caráter insubmisso de Adele e a má consciência de Octavio são ilustrados por episódios pouco plausíveis, enquanto o amor dos dois, igualmente inconvincente, vai sendo retardado por circunstâncias puramente novelescas.
Quanto aos fatos da história espanhola, estes se sucedem mediante citações explícitas, do franquismo à democracia, à dissidência catalã e à Covid-19. Tudo soa desconectado, como numa série mal condensada. Como resultado, a intensidade buscada com tanta sofreguidão só produz indiferença.
>> 8 Décadas de Amor está nos cinemas.




