Quando o genocídio virou pizza

ANATOMIA DO CAOS

De certa forma, o ano de 2021 ainda não terminou. Quando vemos Flavio Bolsonaro almejar a presidência da República e tantos envolvidos na conduta que elevou o número de mortos pela Covid-19 no Brasil a mais de 700 mil seguirem aí impunes e até ocupando cargos públicos, fica claro que o horror continua. Não temos mais a pandemia, mas temos a permanência de um vírus tão maligno quanto.

Em abril de 2021, a cineasta baiana Dandara Ferreira (Meu Nome é Gal) se instalou no Senado Federal para documentar a CPI da Covid. Era uma semente de esperança para que a justiça fosse feita enquanto as estatísticas macabras não paravam de crescer. Anatomia do Caos é um registro dos embates no plenário e nos corredores entre bolsonaristas e políticos menos indecentes sobre a omissão e a hipocrisia do governo Bolsonaro perante a catástrofe humanitária.

Usando imagens da TV Senado, de outras fontes e de captação própria nos bastidores da CPI, Dandara e seus montadores Lara Beck e Renato Sircilli construíram um dossiê incriminatório que causa indignação e vergonha alheia. Figuras repulsivas como os  “médicos” Anthony Wong – um negacionista cujo motivo da morte por Covid-19 foi ocultado pelo hospital da Prevent Senior – e Nise Yamaguchi criticavam a vacinação e defendiam a cloroquina como “tratamento prévio”. Eduardo Pazuello e Osmar Terra se associavam a Bolsonaro no projeto de desinformação sobre a pandemia. O filme relembra, entre outras coisas, Pazuello perguntando o que o Ministério da Saúde tinha a ver com o fornecimento de oxigênio aos hospitais de Manaus, num dos momentos mais perversos daquela administração.

As risadas e deboches de Bolsonaro são bem conhecidos, mas ganham mais contexto ao se relacionarem com o restante do panorama. É o que faz Anatomia do Caos, um pouco na linha dos recentes documentários de Petra Costa. Com acesso exclusivo a reuniões dos líderes da CPI e a depoimentos de Randolfe Rodrigues, Simone Tebet, Omar Aziz e Renan Calheiros, o filme acompanha as discussões sobre a proposta de imunização de rebanho e o atraso na compra de vacinas por um presidente que, naquele momento, via o Brasil como “um país de maricas”.

Lá estão o escândalo da corrupção na tentativa de compra da vacina Covaxin, o protocolo sinistro da Prevent Senior ao receitar o tal kit Covid e assumir o óbito como alta hospitalar, a fanfarronice de Luciano Hang, as invocações patéticas de trechos da Bíblia. Em contraposição vemos a dor de pessoas que perderam seus entes queridos e esperavam pelo menos um pedido de desculpas.

Não houve desculpas, nem punições. O relatório final da CPI, como sabemos, foi arquivado pelo procurador Augusto Aras, outro personagem de triste lembrança. No fim das contas, venceu Flávio, que acusava o relatório de ser pura ficção. Anatomia do Caos traz de volta esse episódio num momento em que é preciso lembrar a ameaça permanente da extrema-direita em ano de eleições cruciais não para o futuro, mas para o presente mesmo do país. O bolsonarismo é aquilo: ignorância, irresponsabilidade, crueldade… e caos.

>> Anatomia do Caos está nos cinemas.

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