Kafka no kaleisdoskópio

FRANZ

Em frente a um shopping center de Praga há uma escultura monumental do artista tcheco David Černý. Ela é formada por cilindros de aço que giram lentamente e, em dados momentos, formam o rosto de Franz Kafka. É uma homenagem e, ao mesmo tempo, uma apropriação pós-moderna do mito local pelo universo do consumo. Esse novo filme da veterana Agnieszka Holland parece se inspirar nessa obra – presente numa cena – para construir um filme que gira em muitas direções mas só forma uma imagem concreta, a de Kafka.

Como cinebiografia, Franz procura driblar as armadilhas da cronologia por meio de uma estrutura, digamos, rotativa. A narrativa circula entre várias idades de Kafka, da infância às imediações de sua morte, aos 40 anos, e para além disso. Circula também entre Praga, Viena e Berlim, cidades em que o escritor viveu ou por onde passou. E ainda entre os vários personagens que o rodeavam e que ajudam a contar sua história.

Volta e meia, sua irmã, o pai, o amigo Max Brod e um pianista cego cuja identidade desconheço quebram a quarta parede, abandonando a ação por alguns instantes para comentar sobre Franz. É um recurso manjado, mas funciona simpaticamente e integra bem a proposta de Agnieszka. Afinal, Franz é um mosaico que transita fluentemente entre realidade biográfica, delírio absurdo e saltos jocosos para a atualidade.

Turistas visitam uma versão pândega do Museu Kafka de Praga e uma área rural frequentada pelo escritor, vendem-se souvenires e hambúrgueres com a grife Kafka. O próprio Franz (Idan Weiss) é visto imaginando um sistema de conexão futura que sugere a internet. A forma divertida como a câmera se comporta – vide a cena de sexo com Milena – e a criação de nexos inesperados pela montagem ajudam a compor esse perfil pouco convencional do autor de A Metamorfose. É Kafka visto pelos olhos de hoje, pode-se dizer.

Diante de tantas piruetas, que retrato temos do homem, afinal?

Longe de ser um verbete de enciclopédia, ainda assim Franz pinta os traços mais definidores de Kafka. A busca de silêncio e o temperamento tímido, por exemplo. Ou a figura autoritária do pai, um comerciante judeu a quem o filho dedicou a famosa e ressentida Carta ao Pai. O trabalho burocrático que inspirou O Processo e a sensação de aprisionamento e tortura que suscitou A Colônia Penal estão lá. Também as relações de amor tortuosas que manteve com Felice Bauer, Grete Bloch e Milena Jesenská. A tuberculose obrigou o vegetariano Franz a comer carne, o que sugeriu mais uma graça ao roteirista Marek Epstein. Se A Metamorfose não está explicitada, podemos intuir o tema pelos devaneios do rapaz se confundindo com uma ave, bem como pela presença de uma barata numa cena familiar crucial.

Para além da morte de Franz, o filme avança até a II Guerra em flashes sobre o destino da irmã amorosa Ottla e do amigo Max Brod sob as patas do nazismo. Esse kaleidoskópio de tempos e personagens pode às vezes confundir o espectador. Aí então será útil ouvir Kafka dizer que o maior pecado é a impaciência. É preciso atenção para admirar esse filme bastante jovem de uma diretora septuagenária. A polonesa Agnieszka Holland pode nem sempre ter acertado a mão, mas geralmente apostou na inventividade para tratar de temas pesados, como em Filhos da Guerra, Olivier Olivier, A Sombra de Stalin e Zona de Exclusão. Em Franz, surpreende ela não ter feito um filme com o clichê de kafkiano, mas sim com o fairplay de uma atleta cinematográfica.

>> Franz está nos cinemas.

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