NÓS ACREDITAMOS EM VOCÊS
Esse é um filme de tribunal sem o teatro do tribunal. Cerca de 95% do tempo se passa numa única sala de audiência, onde um casal separado e seus respectivos advogados dão depoimentos perante uma juíza. Na Bélgica é assim: tudo muito sóbrio, disciplinado e ponderado. Justamente por essa moldura de grande contenção, as emoções explodem nas expressões silenciosas ou nas falas cada uma a seu tempo.
Ali estão Alice (Myriem Akheddiou) e o Sr. Goossens (Laurent Capelluto). Ele reivindica o direito de estar com os dois filhos do casal. Ela recusa, acusando-o de estuprador. O menino Etienne delatou abusos sexuais sofridos do pai e adquiriu severas sequelas do trauma. A irmã maior também rejeita a companhia do pai.
Situação clássica, portanto, que é dissecada aqui unicamente pelos depoimentos de pais e advogadxs. Nesse hui-clos extremamente tenso, a direção do casal Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys extrai um condensado de reações mudas e testemunhos frementes capazes de nos sintonizarem perfeitamente com o mérito da questão.
É óbvio desde a sequência inicial – quando Alice luta para que Etienne compareça à audiência, onde ele teme cruzar com o pai – que o filme está do seu lado. Tive mesmo a impressão de um certo maniqueísmo físico entre as caracterizações de Alice, rosto humano e vulnerável, e do ex-marido, fisionomia embrutecida, barba crescida, expressão mais fria.
A ênfase vai toda para a atuação de Myriem Akheddiou, excepcional ao transmitir o autocontrole a custo mantido por Alice, seu semblante à beira do ataque de nervos e o repertório de gestos que exprimem um estado limítrofe. Por vezes, a montagem demora-se sobre seu rosto enquanto ela ouve absurdos. Quando chega a sua vez de depor, é uma avalanche de aflições e desabafos.
Achei bastante interessante acompanhar as escolhas da montagem em relação a quem fala e quem ouve. É curioso que, durante as acusações irreprocháveis de Alice, não vejamos em nenhum momento o rosto do ex-marido. Se isso desperta nossa curiosidade quanto às reações dele, por outro lado vemos reforçada a cumplicidade do filme com a força das incriminações que ela faz.
Por fim, Nós Acreditamos em Vocês (On Vous Croit) ainda nos reserva uma dramática confrontação à saída da sala. O libelo contra a toxicidade masculina fica ainda mais enfatizado.
>> Nós Acreditamos em Vocês está nos cinemas.




