LULA
(crítica-ficção por Oliver Stone)
Eu lamento demais que meu filme sobre o Luís Inácio Lula da Silva ainda não tenha sido lançado no Brasil. Especialmente agora que a figura dele se alevanta contra os presidentes lamentáveis que governam meu país e a Argentina. Questões sobre direitos de imagem ainda vêm impedindo o lançamento.
O fato é que, depois de fazer três documentários sobre Fidel Castro, um sobre Hugo Chávez e abordar diversos presidentes de esquerda sul-americanos da chamada Maré Rosa em Ao Sul da Fronteira, eu queria muito voltar ao Lula. E com um filme intitulado simplesmente Lula. Sem frase, complemento ou subtítulo. O nome de Lula e a reputação de sua história eram suficientes para definir o documentário que dirigi com Rob Wilson.
Vocês vão dizer: ah, é um filme de admiração. E é mesmo, daí que começo já enumerando as benfeitorias sociais realizadas pelos três primeiros governos do PT. “Estava na hora de os trabalhadores governarem o país”, vemos Lula dizer num pronunciamento de tempos atrás.
Eu fiz questão de assumir a sucinta narração da infância e da juventude do futuro metalúrgico, sua entrada na política um tanto a contragosto, as três campanhas à presidência derrotadas e a primeira vitória em 2002. Achei por bem dar o devido destaque para a criação do Mercosul e do BRICS, assim como para a relação entre Lula e os EUA. Não podia faltar a famosa frase de Lula: “A minha relação com o Bush foi muito mais produtiva do que com o Obama”.
Nós todos acompanhamos como, no governo Obama, as coisas começaram a engrossar com a descoberta, por Edward Snowden, da espionagem da CIA nas ações do Palácio do Planalto com Dilma Rousseff. Foi muito bom poder contar com o Glenn Greenwald e seus depoimentos fortes sobre as intervenções secretas dos EUA na Lava Jato e no golpe de 2016 contra Dilma. Na montagem, que fiz juntamente com o Rob, preservei sua declaração de que “parlamentares brasileiros viajavam constantemente a Washington para dar satisfações a seus ‘chefes’ ou talvez receber instruções deles”.
Por outro lado, evidenciei as frases mais repugnantes de Jair Bolsonaro, aquele “tropical Trump”. Editei o material de modo a que o papel sujo da mídia nesses episódios, o período de Lula na prisão, a Vaza Jato e o retorno da “jararaca” ao pódio político preparassem o grand finale, que é a eleição de 2022. Foi um prazer construir uma narrativa de suspense e catarse na apuração dos votos do segundo turno, ali onde a música épica do brasileiro Heitor Pereira atinge o píncaro da emoção.
Sei que posso ter montado o vasto material de arquivo de maneira um tanto óbvia para os brasileiros, mas eu estava fazendo um filme também para plateias que não conhecem bem a história recente brasileira. Já me disseram que, aqui e ali, certas inserções não fazem muito sentido, mas tudo bem… são levadas no roldão. Também já ouvi acusações de que, em função da necessidade de repassar o fio dos acontecimentos, eu teria esvaziado um pouco a entrevista que Lula me deu cara a cara antes das eleições de 2022. Mas vocês sabem, no frigir dos ovos, a gente sempre precisa fazer escolhas.
Uma coisa é certa: eu me diverti um bocado com alguns relatos do Lula, o que se percebe claramente no filme. Fico grato também a esse grande amigo e grande estadista por seu empenho para falar com clareza e ritmo adequados ao trabalho de Sérgio Xavier Ferreira, seu intérprete desde os anos 1990. Lula é mesmo digno de toda admiração.
pseudo-Oliver Stone
>> Lula não está disponível comercialmente no Brasil
>> Leiam também a resenha de Gianluca Cosentino publicada aqui no blog durante o Festival de Cannes de 2024.




