Um hipopótamo incomoda muita gente

NOSSO SEGREDO

Vencedor do Festival de Gramado, Nosso Segredo é, sem dúvida, um filme ambicioso. Passando à direção de longas, a prodigiosa atriz Grace Passô adaptou uma peça de sua própria autoria, Amores Surdos. O título teatral talvez diga mais sobre essa trama oblíqua de uma família cujos membros ensimesmados pouco interagem após a morte do pai. Um pai branco de filhos negros, seja lá o que isso queira dizer.

Um  filme ambicioso na forma como lança pistas inconclusas sobre o que está acontecendo na família. Há o luto. Há uma obra sendo feita no andar de cima da casa. Há uma menina (Jessica Gaspar) encerrada na redoma dos seus fones de ouvido. Há um rapaz (Flip) envolvido na pichação. Há um menino (Efraim Santos) embatucado com o que parece ser uma amiga imaginária, mas que depois vai se revelar como uma presença surrealista na casa.

Os personagens trocam interações misteriosas, olhares inquisitivos e frases retóricas. Às vezes a câmera vagueia pelos cômodos como uma presença desencarnada à medida que o filme se avizinha do gênero terror. A estrutura descontínua e os indícios enigmáticos convidam o público à tarefa da decifração. Estamos dentro da intimidade da família, mas não podemos alcançá-los. Sabemos que metáforas estão sendo semeadas – e o momento atual do cinema brasileiro nos indica que deve se tratar de luto, racismo, colonialismo, etc.

O problema é que a afasia daquelas criaturas acaba se transformando na afasia do próprio filme. A partir de certo ponto, a comunicação se perde, e prevalece uma espécie de vale-tudo. “Coisas que a gente sabe, mas não quer saber”. O que parecia simbólico (o barro vermelho) ou fruto da imaginação (o hipopótamo) torna-se um real absurdo. A ambição, então, se converte em pretensão. Nosso Segredo é um filme pretensioso.

Não há como negar a qualidade da direção e da fotografia de Wilssa Esser, assim como a direção de arte de Lucas Osório. Tudo isso contribui para uma visualidade intensa, ora terna com os personagens, ora sombria na medida do mistério. O desenho sonoro também é notável, com uma partitura de choques e alternâncias que instigam nossa percepção. Pena que essas excelências não substituam um argumento mais aprumado e tangível.

>> Nosso Segredo está nos cinemas.

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