Almas deslocadas

A QUINTA PORTUGUESA

O público precisa suspender o descrédito para apreciar essa história de autoexílio e apropriação de identidades alheias. Não se trata de um drama existencialista, como O Passageiro: Profissão Repórter, de Antonioni. A coprodução luso-espanhola A Quinta Portuguesa (Una Quinta Portuguesa), dirigida pela espanhola Avelina Prat, fica no nível do cotidiano prosaico, daí que vários elementos pareçam implausíveis.

Fernando (Manolo Solo, ator falecido no último 30 de julho) é um professor de Geografia subitamente abandonado pela mulher, uma imigrante sérvia que sai de casa sem deixar sequer um bilhete. Desnorteado, numa curva de roteiro que parece bastante forçada, ele assume a identidade de um jardineiro e o emprego deste, trocando seu apartamento em Barcelona por uma quinta em algum ponto de Portugal.

Fernando, agora Manuel, é um homem cuja abulia não ajuda muito a que criemos empatia com ele. “Não sei” – é o que mais se ouve ele dizer sobre si mesmo, a mulher e o mundo. A relação que estabelece com a dona da quinta (Maria de Medeiros, dona de alguns dos olhares mais expressivos do cinema europeu) e a empregada (Rita Cabaça) é bastante superficial, assim como é ligeira demais a caracterização da patroa. O que mais atiça a nossa curiosidade é saber em que hora o segredo de Fernando será revelado. É pouco para sustentar uma dramaturgia.

As coisas melhoram um bocado no terço final do filme, quando Fernando descobre que seu apartamento em Barcelona não está vazio. A história ganha certa calidez e uma dobra interessante que diz respeito aos dramas da imigração dentro da Europa. O deslocamento também afeta a personagem de Maria de Medeiros e seus amigos, todos “retornados”, ou seja, aqueles cidadãos portugueses que voltaram da África à época da independência das ex-colônias e se sentiram discriminados em Portugal.

“As plantas são mais fáceis de entender”, diz alguém a certa altura. “Não se rouba aos mortos”, ensina a dona da quinta. Frases como essas, salpicadas aqui e ali entre diálogos funcionais, procuram dar espessura a um drama apenas morno. Sem falar na inconvincente manutenção de um sítio daquele tamanho com apenas dois empregados.

>> A Quinta Portuguesa está nos cinemas.

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