Motel desatino

MUITO PRAZER

(crítica-ficção)

Eu já vi muita coisa estranha se passar nos meus quartos, mas pela primeira vez uma equipe de filmagem me penetr… ops, me ocupou com sua parafernália luminosa. Sob o comando de Jorge Furtado, chegaram para contar uma história dentro de mim. Eu estava desativado há um bom tempo, meio largado no abandono, a não ser pela suíte habitada por Grace (Luiza Arraes) desde que o patrão sumiu de vista e ficou lhe devendo salários atrasados.

Rubem (Daniel Oliveira), motorista de aplicativo, acabara de me herdar do seu tio, e me visitava pela primeira vez para descobrir o que fazer do imóvel. Ele não sabia de Grace e tomou um baita susto. Eu logo vi que aquele encontro era típico das comédias românticas, em que o estranhamento inicial vai gradativamente se transformar em afeto.

Lembro-me bem de um casal que costumava alugar a Suíte Egípcia não para transar, mas para ver filmes de Jorge Furtado! Que fantasia estranha! Assim eu aprendi que, na obra do Jorge, a comédia sempre se presta a colocar em xeque padrões de comportamento e formas de se lidar com a lógica capitalista. Nesse seu filme, ele trata também das alianças que se formam para atingir certos objetivos e da discussão ética em torno desses objetivos.

Jorge sabia que estava usando o mesmo título, Muito Prazer, de um filme de David Neves, de 1979, sobre o cruzamento dos olhares e das vidas de três arquitetos e três meninos de rua na Zona Sul carioca. Mas ele não estava lidando com questões de classe, nem com um contexto urbano definido. Seu foco estava nas possibilidades de transformar o sexo e a internet em matéria de sobrevivência. E eu tenho alguma coisa a ver com isso, como vocês sabem.

Rubem e Grace reacenderam meu letreiro luminoso para fazer uma piada infame, restauraram minhas suítes, às quais deram nomes brasileiros divertidíssimos, e instalaram câmeras para filmar os hóspedes. Imagina! Eu jamais permitiria isso se não fosse num filme. E olha que o esquema vai avançando para algo mais ambicioso depois que a eles se junta Nalva (Samantha Jones), uma garota expert em informática. Para ganhar dinheiro com os vídeos e ao mesmo tempo proteger a identidade dos clientes, eles passam a substituir o rosto das mulheres pelo de Grace, usando ferramentas de inteligência artificial.

Ok, não vamos questionar muito a viabilidade técnica dessa empreitada, nem a forma ligeira como isso é posto em cena no filme. Com base na minha experiência em abrigar todo tipo de sexo, garanto que Muito Prazer guarda certa ingenuidade, buscando mais o efeito rápido das one-liners (piadas de uma frase só) do que uma graça mais estrutural. Para mim, o filme é como uma espécie de recreio na carreira de Jorge Furtado.

É nas gags curtas e nas one-liners que Muito Prazer quer discutir os limites da privacidade própria e alheia (é ou não é crime?) e brincar com os subgêneros do filme pornográfico, a criação de personas nesse universo, os clichês do gênero e a concorrência no meu mercado, o dos motéis. Na comparação com os filmes pornôs habituais nos meus monitores, a montagem de Giba Assis Brasil é muito mais ágil, e a perícia do elenco na dialogação é bem mais evidente. Tudo isso contribui para um gostoso programa de fun sex.

Se tivesse que escolher os melhores trechos para colocar nos meus anúncios, optaria pela desenvoltura sapeca de Luiza Arraes e pela participação hilária de Drica Moraes como a mãe da Deusa Coelha. Aliás, essa personagem e sua filha dariam margem a uma análise freudiana. Mas isso não é da competência desse modesto Motel Pérola.

>> Muito Prazer está nos cinemas.    

P.S. No debate da pré-estreia carioca, Jorge Furtado citou dois aspectos que vale a pena trazer aqui: parte do seu argumento se inspirou na história do falsário Han van Meegeren, que teve que pintar um falso Vermeer num tribunal para provar que não tinha vendido patrimônio cultural holandês aos nazistas. Furtado também destacou que este é o seu quinto filme sobre um homem meio perdido que se apaixona por uma mulher forte, inteligente e criativa.

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