Acomodação de sentimentos

O APEGO

Em decisão bastante conservadora, o júri dos Prêmios César escolheu O Apego (L’Attachment) como melhor filme, além de melhor roteiro adaptado (do romance L’Intimité, de Alice Ferney) e melhor atriz coadjuvante para Vimala Pons. Há, sem dúvida, muitas virtudes na condução dessa história de uma família expandida que se forma no vácuo de um luto e de muitas carências. Mas nada que distinga o filme de tantos dramas familiares que vemos por aí.

A prodigiosa Valeria Bruni Tedeschi é o eixo em torno do qual tudo se constrói. Ela dá brilho e veracidade a Sandra, livreira feminista e solteira por convicção. Quando o casal vizinho deixa o filho com ela para uma emergência médica, tem início uma longa rede de afetos que vamos acompanhar pelos dois anos seguintes.

O eixo secundário é Alex (Pio Marmaï), o marido que afunda no luto, na culpa e na carência. Enquanto o pequeno Elliot (César Botti) e Sandra formam um elo, Alex flutua afetivamente, e outros personagens vão entrando na rede, trocando papéis e acomodando seus sentimentos a cada nova composição. Vimala Pons faz uma pediatra relativamente intrusa naquele círculo que se fecha ao redor de Sandra.

Se existe uma tese por trás dessa ciranda de apegos e desapegos é que há sempre algo a se perder para se ganhar o principal. Tantos arranjos nesse filme podem parecer distantes da realidade da posse, do ciúme, etc. Assim como os muitos insights do menino podem soar demasiado precoces. Esse é o preço que o filme de Carine Tardieu cobra em troca de seus doces laços de ternura.

Para nós, brasileiros, a canção dos créditos finais arremata a mensagem contra “os intelectos que não usam o coração como expressão”.

>> O Apego está nos cinemas.            

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