Ecos de uma bela luta

ANISTIA’79

Não há como não se emocionar vendo pela primeira vez o material filmado pelo militante auto-exilado Hamilton Lopes dos Santos durante a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, em Roma, em junho de 1979. As imagens límpidas e firmes captam falas combativas de Gregório Bezerra, Apolônio de Carvalho, Airton Soares, Francisco Julião e Diógenes Arruda. Registram discursos e conversas entre exilados e banidos brasileiros, ali reunidos no que é considerado o maior encontro da esquerda brasileira fora do país na época da ditadura.

Essas cenas preciosas eram desconhecidas até caírem nas mãos de Anita Leandro, documentarista, pesquisadora e professora de cinema da UFRJ. Ela já nos havia brindado com Retratos de Identificação, outro documentário incontornável como memória daquele triste Brasil, também baseado em arquivos. No caso, fotografias e documentos dos arquivos da repressão.

Anistia’79 recupera um momento em que a luta pela anistia se dava no exílio. A conferência de Roma, organizada pelo político antifascista Lelio Basso e a missionária Linda Bimbi, era uma prova da consciência internacionalista do movimento. Enquanto as dezenas de Comitês Brasileiros pela Anistia travavam a luta no front interno, os exilados e banidos faziam o mesmo no exterior. Anistia’79 é o mais eloquente documento dessa ação no exílio.

O grande passo de Anita Leandro foi buscar os remanescentes daquela conferência e colocá-los diante das imagens de quase 50 anos atrás. Lá estão o próprio Hamilton Lopes dos Santos, Jean-Marc von der Weid, Luiz Eduardo Greenhalgh, Branca Moreira Alves e outros reconhecendo-se e aos seus parentes e companheiros na tela. É particularmente emocionante ouvir Heloísa Greco dublar o discurso da mãe Helena Greco, cuja gravação original ficou sem o som. Ou Denise Crispim repondo a voz que lhe faltou em 1974, durante o Tribunal Russell, pouco depois de ter seu companheiro Eduardo Leite, o “Bacuri”, morto pelos militares em seguida a 109 dias de bárbaras torturas. Ou ainda Denise Leal e sua filha relembrando e admirando mais uma vez o marido e pai Manoel da Conceição, bravo sindicalista maranhense que teve uma perna amputada após levar vários tiros e ser preso pela repressão.

O trânsito constante entre as imagens e vozes da conferência, e os personagens que hoje as veem e comentam cria um senso de recuperação histórica que só mesmo o cinema pode proporcionar. Nesse sentido, Anistia’79 é um filme inestimável.

Entre o ontem e o hoje, a memória e o comentário, relembram-se os mortos pela ditadura, critica-se a impunidade dos torturadores e discute-se a participação de trabalhadores e sindicalistas na luta pela anistia. Esta não era uma luta isolada, mas parte de todo um movimento em prol das liberdades democráticas. Rejeitava-se a oferta de uma “meia anistia” restritiva, que excluía parte dos potenciais beneficiários. Nascia ali a reivindicação de uma anistia ampla, geral e irrestrita.

Vale destacar o protagonismo feminino na conferência, reflexo do engajamento das mulheres e feministas na resistência à ditadura. Ruth Escobar foi a encarregada de ler a moção final no encontro de Roma.

Anistia’79 venceu a Mostra Olhos Livres e o Prêmio do Júri Popular em Tiradentes e chega ao circuito numa hora em que é preciso, mais do que nunca, acender o sinal vermelho contra a volta do fascismo ao poder no Brasil. A estreia se dá oito dias antes de a Lei da Anistia completar 47 anos. Que a chama dos resistentes de 1979 se alastre por nós que temos mais um desafio pela frente em outubro próximo. Resta agradecer a Hamilton, Anita e às produtoras Maria Flor Brazil e Alice de Andrade (também corroteirista) por trazerem até nós o exemplo de tenacidade daqueles guerreiros.

>> Anistia’79 estreia nos cinemas amanhã (20/8)

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