A falta que faz um sofá

NEM TUDO É PAZ E AMOR

Como as crianças conviviam com pais hippies ou artistas “doidões” na época do desbunde? Como era chegar da escola e encontrar em casa uma festa regada a drogas? Como era ver os pais nus dentro de casa e perceber que não era assim nas casas dos amiguinhos?

Betão Aguiar, filho de Paulinho Boca de Cantor (dos Novos Baianos) responde a essas questões no documentário Nem Tudo é Paz e Amor. Ele levou adiante um projeto de Jasmin Pinho, colega de infância e também filha da contracultura que morreu em 2020. Betão saiu atrás de primogênitos como Nara Gil, Moreno Veloso e Beto Lee. Eles e elas fazem um balanço de suas infâncias entre o reconhecimento do quanto de liberdade e afeto receberam dos pais e o ressentimento por não terem tido a estabilidade necessária à idade infantil.

Em vários depoimentos é citada a falta que fazia um sofá nas casas desmobiliadas. O sofá me pareceu uma metonímia de tudo o que faltava em termos de rotina e normalidade. Moreno conta como ficava maravilhado e assustado com a movimentação na casa de Caetano e Dedé, onde caretice era ser heterossexual. Ciça Moraes, filha de Moraes Moreira, confessa não se sentir livre como supunham seus pais, pois tinha que cuidar de coisas que crianças da sua idade não cuidavam. Areia Duarte, filha de Rogério Duarte, lembra a prisão e a piração mística e psiquiátrica do pai. Anelis Assumpção, filha de Itamar Assumpção, conta como era difícil ser filha de pai artista conhecido por fumar maconha. O choque com a sociedade “normal” é citada com frequência.

Não se trata de uma crítica careta ao estilo de vida dos pais, mas uma reflexão partilhada por pais e filhos a respeito de um tempo de ultraliberação que ficou para trás. Marília Aguiar, mãe do diretor, e Helena Ignez são duas progenitoras que fazem o contracampo das falas dos mais jovens e defendem suas escolhas em época de ditadura e “ampliação da consciência”.

A pastora evangélica performática Sarah Sheeva, filha de Baby Consuelo, assume-se como conservadora mas admite que a nudez naturalista dos pais lhe ensinou a respeitar os corpos. Ela é uma das que sofreram com os nomes exóticos dados pelos pais, como R’iroca, Areia ou Buchinha.

Afinal de contas, foram herdeiros ou sobreviventes do torvelinho contracultural?

Nem Tudo é Paz e Amor leva essa conversa em meio a um turbilhão de imagens do cinema de invenção, como passou a se chamar o cinema marginal depois do livro de Jairo Ferreira. Muitas dessas inserções me pareceram bastante aleatórias – um pouco como se o roteiro de montagem se deixasse contaminar pela estética do momento a que se refere.

Outro senão é a ausência de identificação das pessoas ao longo do filme. Isso só vem nos créditos finais, o que dificulta um bocado a associação entre pais e filhos durante a projeção. Se eu, velhinho de 72 anos, me senti perdido em boa parte do tempo, imagino como é para espectadores jovens que não têm as referências de fisionomia, nomes, etc. Se a ideia foi fazer um jogo de reconhecimento, há o risco de esse jogo substituir uma fruição mais proveitosa do que se diz e de quem se diz.

>> Nem Tudo é Paz e Amor está nos cinemas.

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