“Não jogue seus filmes fora!”
Com esse slogan, um grupo de professores, alunos e técnicos da Universidade Federal Fluminense está fazendo um trabalho precioso em prol da memória audiovisual do estado do Rio de Janeiro. Eles formam a equipe do LUPA – Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da UFF. Sua missão é pesquisar, coletar, restaurar e digitalizar filmes rodados em película (todas as bitolas entre 8 e 16mm), bem como fitas de vídeo de diversos tipos.
Nos arquivos bem cuidados do LUPA já consta um tesouro de filmes amadores e domésticos realizados desde os anos 1920, incluindo festas de aniversário, congraçamentos familiares e cenas de lazer em bairros do Rio, Niterói e outras cidades fluminenses. Aí se incluem também filmes universitários, institucionais, documentários e publicitários, entre outros.
Depois de tratados pela equipe, esses materiais foram incorporados ao acervo de preservação, sendo que os proprietários receberam cópias digitalizadas em alta resolução sem qualquer custo. Esse é o modus operandi do LUPA.
O acervo abrange também coleções bibliográficas e documentais, além das fílmicas. Algumas chamam atenção e têm filmes disponibilizados no site oficial do laboratório. Uma delas reúne curtas do início da carreira do cineasta Guilherme de Almeida Prado. Outra apresenta a vasta produção do repórter cinematográfico Esdras Baptista (1923-1988), que trabalhou para um amplo leque de instituições, do Partido Comunista Brasileiro ao governo militar pós-1964.
Nas cerca de 1000 latas de película filmadas por Esdras constam, por exemplo, a volta de Luís Carlos Prestes à política após sair da prisão em 1945, a visita de Fidel Castro ao Rio de Janeiro em 1960 e as únicas imagens em movimento de Graciliano Ramos e Carlos Marighella. Entre 1969 e 1972, Esdras registrou performances raríssimas de artistas como Maria Bethania, Nara Leão, Silvio Caldas, Elizete Cardoso, Elza Soares, Marlene, Martinho da Vila e Marcos Vale. Entre as muitas cenas inestimáveis, há um ensaio dos Mutantes, Elis Regina em dupla de sapateado com Miele e um pout-pourri encharcado de humor do MPB4.
Parte desse material está sendo organizado em curtas-metragens por Rafael de Luna Freire, coordenador do LUPA, e Reinaldo Cardenuto. A equipe inaugurou recentemente a primeira exposição do MAU – Museu do Audiovisual Universitário da UFF, responsável pela salvaguarda de equipamentos e artefatos cinematográficos do curso de cinema e de coleções particulares doadas ao LUPA.
Entre câmeras, projetores e películas, ali estão equipamentos pertencentes ao pioneiro gaúcho Eduardo Abelim, biografado por Lauro Escorel no filme Sonho sem Fim. Abelim se mudou para Niterói em 1932, onde criou a Cine Propaganda Fluminense, que promovia exibições em praças públicas. Seu filho e colaborador, Osni Edu Abelim, confiou o material ao LUPA.
Uma simples visita ao laboratório e ao museu pode confirmar a dedicação do pessoal, os cuidados com o acervo e a qualidade da tecnologia empregada nos trabalhos. Além da visita presencial, é possível consultar o acervo por meio da base de dados disponível no site do LUPA. A memória do Rio de Janeiro agradece.
De minha parte, agradeço a Livia Cabrera pelo gentil convite e o ciceroneamento.





