NATAL AMARGO
A cantora costa-riquenho-mexicana Chavela Vargas foi redescoberta por Pedro Almodóvar no início dos anos 1990 e já havia frequentado a trilha musical de cinco de seus filmes. Em Natal Amargo (Amarga Navidad), ele volta a soltar aquela voz peculiar em três cenas. Numa delas, duas personagens choram ouvindo La Llorona, assim como Almodóvar diz ter acontecido com ele diversas vezes. O próprio título do filme é o mesmo de uma famosa canção de Chavela.
Mais que simples menções, a música chorosa e dramática da cantora parece um comentário para a história tristonha que ele conta nesse longa-metragem. O velho e bom humor irônico de Almodóvar só aparece na breve passagem do bombeiro stripper vivido por Patrick Criado. De resto, vemos um cineasta perdido em ruminações autorreflexivas que não consegue transformar em um filme atraente.
Não se pode negar: Almodóvar está consciente de que, à exceção de Mães Paralelas, não acerta no alvo há pelo menos dez anos. A tentativa de transformar essa consciência em um novo trabalho redunda em pura autocomplacência.
Ele se desdobra em dois papéis. À falta de melhor inspiração, o cineasta Raúl Rossetti (vivido pelo argentino Leonardo Sbaraglia) vampiriza pessoas próximas num roteiro que está escrevendo em 2026, chamado… isso mesmo, “Natal Amargo”. Simultaneamente, vemos o seu filme se desenrolar em torno do Natal de 2004 ao redor de Elsa (Bárbara Lennie), diretora de publicidade que também escreve um roteiro para voltar ao filme de ficção.
Há uma espécie de jogo de espelhos que tenta navegar pelas águas da autoficção, da confusão entre vida e cinema, e da apropriação de vidas alheias na arte. Surpreende em Almodóvar uma certa ingenuidade no trato desses assuntos, com diálogos que beiram o lugar comum: “O cinema é premonitório (…) A realidade acaba se infiltrando (…) O final de um filme se impõe ao roteirista e pode surpreendê-lo”.
Se a enunciação desses conceitos soa como coisa de principiante na tagarelice sem fim de Natal Amargo, sua posta em cena é ainda mais aborrecida. Raúl tem uma longa e maçante discussão com sua assistente lésbica a respeito de vampirização. Elsa troca confidências melodramáticas com duas amigas próximas, numa variação pouco inventiva da sororidade habitual em filmes de Almodóvar.
As enfermidades, comumente abordadas em seus filmes com um distanciamento divertido, aqui assumem, pesadas, o proscênio. Depressão, ataques de pânico, crises de enxaqueca, tumor no cérebro, tentativa de suicídio, mortes e luto se acotovelam nas duas camadas narrativas, fazendo com que em boa parte do filme eu me sentisse diante de uma telenovela banal.
Resta somente a elegância com que Almodóvar encena a melancolia. Nisso vai a combinação sempre sugestiva de cores fortes na direção de arte, assim como o desfile de modelitos charmosinhos nos figurinos. Citemos ainda uma participação esquisitíssima da cantora Amaia entoando Las Simples Cosas diante de uma Elsa derrubada pela cefaleia. Para Almodóvar, Chavela Vargas é remédio para tudo.
>> Natal Amargo está nos cinemas.





