Elly desaparece para os outros “aparecerem”

O cinema iraniano que aprendemos a amar se caracteriza por alguns ingredientes típicos. O estilo franciscano de Jafar Panahi ou Majid Majidi, por exemplo. Os deslocamentos no espaço e a metalinguagem de Abbas Kiarostami. O proselitismo político da família Makhmalbaf. Nada disso está presente em Procurando Elly, a mais nova grande revelação daquele celeiro de bons filmes. O diretor Ashgar Farhadi, em seu quarto longa-metragem, impõe-se como nova estrela a partir do Urso de Prata em Berlim e mais uma penca de prêmios internacionais. 

Elly traz acréscimos de sofisticação à narrativa do cinema iraniano. Como bem notou Ely Azeredo à margem de sua forçosamente sucinta resenha em O Globo, o filme evoca ingredientes de Antonioni, Hitchcock e Buñuel. As primeiras sequências, de um naturalismo aparentemente banal, apenas colocam as bases para o thriller emocional que vai envolver os personagens após o misterioso desaparecimento de uma moça na casa de praia. A partir daí, arma-se uma rede de dúvidas, expectativas, mentiras, intrigas, culpas e transferências que espelham dilemas éticos e morais de uma sociedade modernizada na superfície enquanto, em profundidade, permanece atada ao obscurantismo.   

Um grupo de amigos se reúne para um fim de semana de lazer. Para surpresa dos demais, Sepideh traz como convidada a professora do seu filho, Elly, visando uma aproximação romântica com um amigo divorciado. Depois que Elly desaparece sem deixar traços (como a Anna de A Aventura), o clima se altera progressivamente. O título internacional, About Elly, é bem mais expressivo do que acontece no filme. Pois é a propósito de Elly que os demais externam seu caráter. O sumiço da professora é o que faz os demais “aparecerem” como consciências em ação.

O princípio islâmico que condena a mentira é o mesmo que determina a intolerância nas relações amorosas em função dos conceitos de honra e fidelidade. Daí a grande complexidade do que vivem os personagens, divididos entre o compromisso humanista e o determinismo dos códigos morais. Religião, poder familiar e ordem social estão em jogo no subtexto – o que faz de Elly uma espécie de psicodrama do estado atual do Irã. Sobre isso, é interessante registrar que o mesmo governo que estimulou a exibição internacional de Elly proibiu a atriz Golshifteh Farahani (Sepideh) de sair do país por ter ela atuado num filme hollywoodiano – Body of Lies, de Ridley Scott.  

(Update: Alertado pelo colega Luiz Fernando Gallego, encontrei versões que desmentem essa proibição, pelo menos em caráter definitivo, já que Golshitfeh agora vive em Paris) 

Também em matéria de realização, o filme aporta novidades de estilo ao que conhecíamos do cinema iraniano. A impressão de espontaneidade e autenticidade, fornecida por um grupo excepcional de atores, continua tão forte quanto sempre. Mas o jogo de cena aqui tem um requinte e um dinamismo especiais. A movimentação de atores e pontos-de-vista expressa a todo momento a interrelação entre os personagens. O cenário praticamente único é esquadrinhado com uma riqueza de perspectivas que parece renová-lo a todo momento.  

A estrutura geral do filme pode ser vista como uma suíte musical dividida em quatro movimentos. Primeiro, um Allegro, com a chegada do grupo à casa praiana, as paqueras entre Elly e Ahmad, a revelação das primeiras mentiras de Sepideh. Em seguida, um acelerado Prestissimo, com a exasperação que se segue a um quase afogamento e a procura de Elly. Depois o ritmo se retrai para um Andante, quando advém a perplexidade e parte-se para a troca de acusações. Por fim, um Adagio se instala com o surgimento de um último personagem e uma última camada nesse mil-folhas de humanidade.

Cada um desses movimentos apresenta uma forma própria de cinegrafia e de edição, demonstrando o completo domínio de Ashgar Farhadi nos seus meios de expressão. Por diversos motivos, Procurando Elly renova nosso interesse por uma das melhores cinematografias do mundo desde os anos 1980.        

 

2 comentários sobre “Elly desaparece para os outros “aparecerem”

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